9 de maio de 2018

O Silêncio da Noite - Capítulo III - Cura

 Shiryu! O que está fazendo? – Shunrei gritou ao vê-lo perigosamente perto da beira do abismo. Correu até ele e o abraçou.  Meu Deus! O que você ia fazer, seu teimoso?
 Eu não sirvo mais, Shunrei – ele disse, chorando e caindo de joelhos.  Sou um peso para você, sou peso demais para que eu mesmo possa aguentar. Não quero mais. Eu quero ir embora. Eu estou cansado... Tão cansado... Eu quero ir... Eu quero acabar com isso...
– Não! – ela gritou, também em prantos, ajoelhando-se ao lado dele. – Você é tudo que me restou. Se eu ainda estou aqui é por você. Sem você eu não posso suportar... essa dor... essa dor tão grande que eu estou sentindo. Eu preciso de você, Shiryu!
Shunrei estava a ponto de desabafar sobre o que tinha ocorrido depois que Ohko apareceu, bastava uma palavra de Shiryu, bastava um pequeno incentivo para ela ir adiante, mas ele estava tão centrado em si mesmo e em seu próprio problema que sequer percebeu o que estava implícito na frase dela. Achava que tudo se resumia a sua cegueira e a sua própria dor, então ela se manteve calada. Queria sentir raiva dele por ser tão egoísta, por não notá-la, mas o que sentia era pena dele e de si mesma.
– Vamos para casa... – ela disse, ajudando-o a se levantar. – E nem pense em tentar isso de novo. Me prometa que não vai tentar.
 Shunrei, não quero que se preocupe comigo. Quantas vezes vou ter que falar isso?
 Me prometa! – ela repetiu, agora em tom mais firme. – Prometa que, não importa o que aconteça, você não vai tentar se matar. Prometa! Prometa agora!
 Eu prometo – ele disse, apenas para ela parar de insistir. Não tinha certeza de que cumpriria essa promessa.
Então os dois caminharam de volta para casa, em silêncio, cada um pensando nos seus próprios problemas, experimentando uma sufocante solidão, embora vivessem na mesma casa.
Shunrei levou-o para o quarto, ajudou-o a trocar a calça empoeirada por uma limpa e deixou-o deitado na cama, pronto para dormir. Por precaução, trancou as portas da casa e levou as chaves consigo, guardando-as no fundo da gaveta de seu criado-mudo.
Ao invés de dormir, Shiryu remoeu os acontecimentos do dia até o amanhecer. Acabou tomando outra decisão: ia dar a si mesmo um prazo para se adaptar a sua nova condição de cavaleiro cego. Se não conseguisse, não cumpriria a promessa feita a Shunrei.
Como Shiryu, ela também não conseguiu dormir. Não conseguia parar de pensar nas últimas horas. Pensava em Ohko, na violência sofrida, mas também no comportamento de Shiryu. De manhã ele tinha dito que não queria perdê-la, tinha dado a entender que a amava e durante a madrugada ele resolve tentar se matar? O que tinha mudado em menos de um dia? E ainda tinha a mágoa por ele sequer perceber que ela sofria por algo mais que o quase afogamento.
No café da manhã, ele anunciou sua decisão, omitindo o que faria caso não conseguisse. Disse apenas que estava decidido a treinar duramente para conseguir voltar a ser o que era antes. 
O Mestre sorriu satisfeito. Sabia que isso ia acontecer a qualquer momento, conhecia o discípulo, sabia da força interior dele.
Shunrei achava que era cedo demais, ele ainda estava ferido da briga com Ohko, mas também sabia que os dois não iriam lhe dar ouvidos e sentia-se esgotada demais para argumentar com eles naquele momento. Mesmo assim, mais tarde, ao ver Shiryu pronto para sair e “treinar”, ela não aguentou. Pediu-lhe para esperar mais um pouco, pelo menos até que o corte na cabeça sarasse, mas ele não cedeu. Disse que não importava o que ela fizesse, ele jamais poderia retribuir. Ela retrucou que não se importava, que seria os olhos dele e foi sincera quando falou isso. Estava magoada e triste, mas o amor que sentia por ele era maior que essas coisas. Cuidaria dele a vida inteira se fosse preciso.
Ele engoliu em seco, tentando conter a vontade de gritar que sentia. Não queria que ela fosse seus olhos! Não queria continuar sendo um inútil! Queria poder ser forte novamente, independente, queria não precisar dos cuidados dela! Queria poder cuidar dela algum dia! Por que ela estava fazendo isso? Falando sobre levar uma vida tranquila com ele nesse estado? Ela precisava entender que se ele não começasse a reagir agora, depois seria tarde demais!
– Eu já disse. Não se preocupe comigo – ele repetiu, procurando usar um tom de voz ameno, e saiu tateando pelo caminho em direção à cachoeira.
Desceu devagar, guiando-se pelo som, esbarrando nas árvores e folhagens, tropeçando nas pedras. Quando chegou ao lago, tirou a camisa e entrou na água com cuidado, sentindo o chão com cautela e avaliando a correnteza e a profundidade. Colocou-se debaixo da queda d'água e sentiu a força da natureza fustigando seu corpo. O machucado na testa logo se abriu e começou a sangrar, mas ele sequer percebeu. Estava focado. Precisava continuar focado. Era isso ou o abismo.
Para garantir que ele não faria nenhuma besteira, Shunrei o seguiu. Estava tão deprimido que ela não confiava na promessa feita na noite anterior nem nessa repentina motivação, que podia sumir a qualquer instante. Ficou quieta atrás das pedras, observando-o. Pensou que era até bom ter de segui-lo, vigiá-lo. Fazer isso, junto com as tarefas domésticas, preenchia seu tempo, ocupava sua mente, fazia com que ela não pensasse em suas próprias dores. O problema era quando a noite caía e ela se recolhia em seu quarto...
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Nos dias seguintes, Shiryu continuou se recuperando física e emocionalmente. Ainda tinha momentos de baixo astral, mas no geral estava bem e animado com seus progressos. Estava pronto para reencontrar Ohko e mostrar que não era o cavaleiro de Dragão por acaso. Queria mostrar para ele, para o Mestre e para Shunrei que tinha superado a cegueira e ainda era digno de ser um cavaleiro.
– Shunrei... – ele murmurou tristemente.
Não compreendia o comportamento dela. Mesmo nos primeiros dias de cegueira, os mais difíceis, ela estava sempre sorrindo, dizendo coisas otimistas, pesquisando sobre remédios que podiam ajudá-lo. Agora ela parecia carregar sempre um peso consigo. Já não sorria como antes, não enchia a casa de alegria e frequentemente ele a ouvia chorar à noite. No começo, quis acreditar que ela chorava por ele não ter conseguido salvá-la do afogamento. Mas ele já estava bem melhor, não pensava mais em suicídio, se sentia pronto para lutar. Então por que ela ainda chorava tanto?
“Talvez ela melhore quando eu vencer Ohko e provar que recuperei minha confiança”, ele pensou. “Preciso fazer isso logo e ela verá que ainda sou capaz de protegê-la.”
Decidido, Shiryu foi até o Mestre e entregou-lhe a armadura de Dragão. Ia procurar Ohko e enfrentá-lo. Depois voltou para casa a fim de avisar Shunrei. Quando estava perto ouviu as batidas ritmadas do pilão. Ela preparava novamente o remédio que, acreditava, poderia curá-lo. Não teve coragem de se aproximar e se despedir dela... Ou venceria Ohko e voltaria com as forças renovadas ou morreria tentando. Era um caminho sem volta.
Em casa, depois de preparar o remédio, Shunrei estranhou Shiryu não ter voltado para o almoço. Intuiu onde ele estava e correu até o rio, onde o encontrou já lutando com Ohko, sob o olhar do Mestre. Achava que o maldito merecia uma punição dura pelo que fez e que se a punição viesse pelas mãos de Shiryu, seria perfeito. Mas aquilo só ia acabar quando um dele caísse morto e ela temia que fosse Shiryu. Então rezou fervorosamente para que fosse Ohko, para que, mesmo sem saber o que o desgraçado tinha feito, Shiryu o fizesse pagar. Que Shiryu livrasse o mundo daquela escória. 
E assim foi. Shiryu venceu. Ohko estava morto.
Ela correu até Shiryu e o abraçou. Secretamente, aliviou-se com a morte de seu estuprador. Olhou o corpo ensanguentado de Ohko com o mais profundo desprezo.
– Ele merece um sepultamento digno – Shiryu disse.
Shunrei não se manifestou. Queria gritar que o que ele merecia era ser jogado em qualquer lugar como um saco de lixo podre, mas ficou quieta. Resolveu ajudar Shiryu, guiando-o até um lugar apropriado, e ajudou-o a abrir a cova. Encarou como um ritual de encerramento, como um virar de página. Queria arrancar a dor do peito e jogar dentro daquele buraco, cobri-la de terra e nunca mais ter de senti-la.
Quando terminaram, voltaram para casa, taciturnos, exaustos e sujos de terra. Ela deixou que Shiryu se banhasse primeiro e depois banhou-se também.
“Ele está morto”, pensou, embaixo do chuveiro. Esperava que, de alguma forma isso tornasse as coisas mais fáceis, mas percebeu que não estava adiantando muita coisa. A dor continuava lá... Terminou o banho, foi para o quarto e o choro veio.
Sentado no sofá, Shiryu ouviu o pranto dela sem compreender. Embora cego, ele provou que não estava inválido! Conseguiu superar a perda da visão e vencer Ohko. Então por que razão ela ainda continuava imersa nessa tristeza toda? Não esperava que ficasse feliz, afinal ele tinha matado uma pessoa, mas que demonstrasse ao menos um pouco de satisfação por ele ter se superado.
Quando o Mestre Ancião voltou para casa, Shiryu resolveu conversar com ele sobre Shunrei. Esperava que ele o ajudasse a entendê-la.
– Eu venci – ele começou. – Eu derrotei o Ohko, voltei a ser o que era antes. Mas Shunrei continua triste. Sei que ela se sente cansada de ter de cuidar de mim, mas não entendo. Eu estou melhor, estou voltando a ser o que era, já não preciso de tantos cuidados. Não entendo por que ela continua assim tão triste.
O Mestre, que tinha decidido não interferir e deixar que ele e Shunrei se resolvessem sozinhos, impacientou-se com Shiryu:
– Quando você vai perceber que o mundo não gira em torno de você?
– Mestre, eu... – ele começou a falar, mas foi interrompido.
– Ela está sofrendo desde o maldito retorno de Ohko e você não percebeu que não era por você!
– Eu não podia imaginar que...
– Ela não me contou nada – o Mestre o interrompeu novamente –, mas voltou mudada aquele dia. Eu sei que aconteceu algo mais do que o que ela contou, eu imagino o que tenha sido e ela está sofrendo por isso!
– Mestre... – Shiryu, murmurou, cabisbaixo, envergonhado demais para olhar nos olhos do Mestre. – Mas o que houve afinal? Não consigo imaginar algo que tenha mexido tanto com ela.
– É Shunrei quem tem de contar... Se ela quiser.
Shiryu assentiu e levantou-se. Delicadamente, bateu à porta do quarto de Shunrei. Ela disse que entrasse e ele o fez.
– Está precisando de alguma coisa? – ela perguntou.
– Eu quero conversar... – ele disse, tateando até a cama dela. Shunrei o auxiliou e os dois sentaram na cama. – Estou preocupado com você. O que está havendo?
– Ah, nada, Shiryu – negou ela, pouco convincente. – Está tudo bem. Não se preocupe. Só foi um dia difícil e estou cansada.
– Não, não é isso. Você mudou. Agora você passa a maior parte do tempo em silêncio... e eu a ouço chorar à noite, quase todas as noites. E estava chorando há poucos minutos.
– Não é nada, Shiryu – ela disse e tentou engolir o choro que já começava a aflorar novamente.
– Fale comigo, por favor. Não quero que fique desse jeito... eu... me sinto tão mal por não ter percebido antes. Eu fui tão egoísta... Me perdoe. Preciso que me perdoe.
– Esqueça isso, Shiryu. Está tudo bem.
– Não está. Eu preciso saber o que está te machucando. Como vou te ajudar se eu não souber?
– Eu não queria que você se preocupasse – ela começou a falar, e não conseguiu mais controlar o choro.
Meio sem jeito, Shiryu a abraçou.
– Mas eu já estou preocupado e nem sei o porquê.
– Eu não quero contar a ninguém. É melhor assim... Agora já acabou...  Ele está morto...
– Ohko? O que ele fez? Não é melhor que eu saiba logo de uma vez? Talvez você se sinta melhor depois de falar.
Shunrei ponderou. Será que contar a ele poderia ajudar mesmo? Ela não tinha certeza, mas sabia que ele não ia desistir. Então respirou fundo e começou a falar, apesar do nó que se formava em sua garganta.
– Naquele dia em que eu quase me afoguei... ele... ele me estuprou...
Shiryu sentiu como se tivesse levado um soco. E detestou a si mesmo por não ter compreendido o sofrimento dela. Como pôde ser tão egoísta?
– Ele o quê? Ele foi capaz de...?
– Foi... ele me...  – Ela evitou repetir a palavra. – Foi horrível.
– Shunrei... Você sofre uma violência dessas mas continua se preocupando só comigo?
– Eu vou ficar bem... Eu acho... –  ela disse e, já que tinha começado, despejou tudo de uma vez. – Só não estou conseguindo parar de pensar no que houve. Especialmente no silêncio da noite... fico relembrando, fico ouvindo ele arfando em cima de mim... falando coisa obscenas... lembro daquele cheiro horroroso dele... e choro. Mas ainda é muito recente... Vai passar. Um dia vai ter que passar.
– Eu vou fazer de tudo para que passe, meu amor... – ele declarou, surpreendendo-a.
Shunrei ergueu o olhar para a face dele. “Meu amor”... Ele nunca tinha se referido a ela desse jeito ou demonstrado sentir qualquer coisa maior que carinho e respeito, até aquele dia em que ele falou que não queria perdê-la. Ela achou que era um sinal de que ele a amava, mas depois veio a tentativa de suicídio e ele tinha voltado ao “normal”. Mas agora... ele tinha dito “meu amor”. Ela não estava louca, estava?
– Se eu soubesse... – ele continuou. – Eu o teria feito sofrer mais... Ele ia me pagar muito caro pelo que fez com você. E tive pena dele! Estava sofrendo por tê-lo matado!
– Que diferença faz agora? – ela indagou. – Ele já está morto.
– A diferença é que ele ia saber que estava morrendo porque ele te feriu... porque você é o que tenho de mais importante nessa vida e eu não quero que ninguém te machuque.
Shunrei sorriu, embora seu rosto ainda estivesse banhado em lágrimas. Estava encantada com o que acabou de ouvir e Shiryu notou a mudança no estado de espírito dela.
– Eu te amo, Shunrei – ele disse, antes que perdesse a coragem de fazê-lo. – Eu sei que nunca demonstrei, sei que a faço sofrer quando vou lutar, sei que tenho sido rabugento nos últimos tempos, sei que fui egoísta demais nas últimas semanas... e peço perdão por tudo isso.
–  Não tem o que perdoar... –  ela disse, sinceramente.
–  Eu te amo há tanto tempo que nem sei mais quando começou – ele continuou. – Só sei que carregava isso comigo em segredo, sem saber como lidar, mas agora... depois disso... depois de saber...
– Eu também te amo, Shiryu – ela disse, e aproximou a face da dele.
Estavam tão próximos que sentiam as respirações descompassadas um do outro. Ele queria beijá-la, mas não sabia se devia, e não podia ver o rosto dela, analisar a expressão, saber o que ela queria. Então sentiu os lábios dela ternamente tocarem os seus. Abriu um pouco a boca, mostrando a ela que queria, mas deixou que ela definisse o limite. Shunrei entendeu e aprofundou o beijo, ousou introduzir um pouco a língua, tocando a de Shiryu. Os dentes tocaram-se levemente pela inexperiência dos dois, mas logo os dois se ajustaram e saborearam docemente seu primeiro beijo.
– O seu amor vai me curar... – ela disse, o coração disparado de emoção. Tinha esperado tanto esse momento. Shiryu dizendo que a amava e, logo em seguida, seus lábios nos dele, um beijo apaixonado. Saber que era amada fez com que ela se sentisse fortalecida, capaz de superar o horror daquele dia à beira do lado.
Era só uma questão de tempo.
Continua...

2 de maio de 2018

O Silêncio da Noite - Capítulo II - Abismo

Pelos passos duros, pesados, Shiryu sabia que um homem se aproximava, e sabia que ele estava com Shunrei porque a sentia, embora estranhasse o fato de não ouvir a voz dela. Antes que perguntasse, o homem disse que ele não devia se preocupar, Shunrei estava “apenas” inconsciente e, de imediato, Shiryu reconheceu algo familiar naquele jeito de falar. 

– Ohko? – Shiryu indagou. A voz tinha mudado, claro, ele já não era uma criança, mas o tom agressivo e rancoroso ainda era o mesmo. Só podia ser ele. 

O homem confirmou. Sim, ele era mesmo o antigo discípulo do Mestre Ancião, aquele que foi expulso do treinamento anos atrás. Shiryu perguntou quando ele voltou. Só depois lembrou-se de agradecer pelo salvamento de Shunrei, embora ainda não tivesse certeza de que ela estava realmente bem. Por que não recobrava logo a consciência? 

– Não precisa agradecer – disse Ohko, e colocou Shunrei no chão. – Ela já fez isso! Tenha certeza que ela fez... 

Shiryu estranhou o tom mordaz da última frase. Ohko dizia algo nas entrelinhas? Não teve tempo de pensar mais nisso, pois o rival passou a falar da promessa feita na infância, de acertar as contas... Que contas? O que aconteceu na infância foi pela própria indisciplina dele! Não havia nada a “acertar”. 

Mas Ohko discordava e continuou a provocar Shiryu até se cansar e partir para a ação, atacando o cavaleiro, o qual reagiu debilmente. 

Ohko decepcionou-se. Esperava uma boa luta com Shiryu até vencê-lo, mas quem era esse homem sem forças, de olhar vazio? Esse era o escolhido do Velho Mestre Bundão? O queridinho? Era uma piada! E já que era assim, ele ia se divertir batendo um pouco mais no otário. Pensou em contar logo o que fez com Shunrei minutos atrás, mas deixou para depois. Seria o toque especial no desfecho de sua vingança. 

Enquanto recebia os golpes, Shiryu sentiu aquele cosmo cheio de ódio e rancor e foi tomado por um sentimento que não esperava: estava com medo... Estava com muito medo.

– Se não toma a iniciativa – Ohko disse, agora decidido a golpear com força total aquele fiapo de cavaleiro na frente dele –, então eu tomarei por você. O GRANDE FURACÃO DO TIGRE!

Shiryu recebeu o forte golpe passivamente, sem sequer tentar se defender, e foi jogado contra o paredão de pedras. Pensou com tristeza que nunca tinha sentido medo antes e entregou-se a seu destino. Que Ohko o matasse logo. Já não servia mais para nada agora que era um cavaleiro cego e medroso. 

Aguardou a morte. Aguardou que ela viesse silenciosa e triste, mas o que veio foi um grito de Shunrei mandando-o que parassem com aquilo. Ele arrepiou-se, pois sabia o que viria em seguida e, como previu, ela revelou a cegueira.

“Não!”, Shiryu pensou. “Por que ela fez isso? Não queria que ele soubesse... Eu só queria... morrer.”

Entretanto, o alerta dela surtiu efeito e Ohko parou de atacar. Shiryu ainda arrastou-se no chão, implorando para que o rival continuasse, para que não tivesse pena dele.

– Por hoje é só... – Ohko disse, e antes de se afastar dirigiu a Shunrei um olhar cheio de maldade e malícia. – Mas talvez eu volte, Shunrei. Gostei do dia de hoje. Talvez queira mais.

Ignorando o calafrio provocado pelas palavras dele, Shunrei correu até Shiryu e o abraçou. Ajudou-o a se levantar e depois recolheu as próprias roupas onde as tinha largado. Vestiu-as rapidamente para livrar-se do casaco imundo de Ohko, o qual jogou no rio para que a correnteza levasse. Segurou a mão de Shiryu e os dois voltaram para casa em silêncio, ele apenas deixando-se guiar por ela, chateado por tudo que aconteceu consigo, e totalmente alheio à dor dela. 

Já em casa, ele se recusou a entrar e ficou sentado na soleira da porta, remoendo os acontecimentos do dia. Ela deixou que ele ficasse e entrou logo, pois também precisava de algum tempo sozinha. 
Ansiava por tomar um banho de verdade para tentar se livrar daquele cheiro de animal que Ohko deixou impregnado em sua pele. Abriu o chuveiro e deixou-se ficar embaixo do jato por alguns minutos. As feridas arderam, mas isso era o menos importante. A outra dor era ainda maior... 

Esfregou o corpo todo com bastante sabonete, mesmo assim ainda achava que sentia o fedor de Ohko. Quando saiu do banho, vestiu um vestido folgado e de mangas compridas para esconder as marcas nos braços e porque as costas e joelhos esfolados contra a pedra doíam. 

Depois olhou o rosto no espelho. A marca do tapa era clara como se fosse uma estampa na pele alva. Shiryu não podia vê-la, mas o Mestre... Ele certamente comentaria algo e ela ainda não queria falar...

– Uma coisa de cada vez – ela disse a si mesma, e pegou a caixinha de primeiros-socorros. Passou um pouco de antisséptico nas feridas dos joelhos e depois foi fazer um curativo no ferimento que Ohko causou na cabeça de Shiryu. Ela já tinha olhado, era só um corte superficial, mas podia infeccionar.

– Eu estou bem – ele disse irritado, quando ela tocou sua cabeça. – Não precisa...

– Precisa, sim! Vai infeccionar.

– Já disse que não precisa! – ele repetiu, aumentando um pouco o tom de voz.

Ela ignorou a birra e fez o curativo. Quando terminou, sentou-se ao lado dele.

– Você está com raiva de mim? – ela perguntou. 

– Não. Por que estaria? – ele respondeu secamente.

– Sei que você não queria que eu contasse que...

– Que estou cego – interrompeu, com o tom rancoroso que ela detestava, mas que ele logo amenizou. – É, eu não queria. Mas não estou com raiva de você, estou com raiva de mim mesmo. Sei que você não fez por mal. Sei que só queria que acabasse.

– É... não fiz... eu não queria que ele machucasse você... 
 Queria completar dizendo que sabia do que Ohko era capaz por vingança, pois ele a tinha ferido da forma mais torpe, mas refreou-se.

– Estou bem – ele disse, e depois de uma breve pausa, prosseguiu. – Desculpe, eu estou pensando só em mim quando você quase morreu afogada. Se ele não tivesse aparecido, certamente você não estaria aqui. Se dependesse de mim... bom, você sabe. Como se sente?

Ela engoliu em seco. Não sabia o que dizer. Como se sentia? Humilhada, ferida, violada e aterrorizada pela possibilidade de Ohko aparecer novamente.

– Sinto-me um pouco cansada – ela respondeu, respirando fundo e omitindo deliberadamente a violência que sofreu. Não ia contar a ninguém. Aquela era uma dor só sua. Além do mais, não queria arranjar mais preocupação para Shiryu. – Meus braços e pernas doem, mas já passou.

– Você lembra como foi que ele te salvou?

– Não – Shunrei mentiu outra vez, mas os olhos marejaram e ela enxugou com a manga do vestido. – Eu acho que desmaiei. Só acordei quando vocês dois já estavam brigando.

– É... parece que o Ohko apareceu no lugar certo, na hora certa... – ele constatou magoado e um silêncio pesado formou-se entre eles. 

“Lugar certo e hora certa?”, Shunrei perguntou-se. 

Talvez tivesse sido melhor morrer afogada. Não teria passado pelo que passou. Teria sido poupada da humilhação e do sofrimento. Logo em seguida, arrependeu-se por pensar isso. Se tivesse morrido, quem ia cuidar de Shiryu e do Mestre? Precisava continuar viva por causa dos dois. A dor passaria algum dia... Tinha que passar.

– Posso te pedir uma coisa? – ela suplicou. Estava se sentindo tão sozinha, tão perdida...

– Claro – ele respondeu.

– Me abraça? 

Shiryu surpreendeu-se com o pedido mas a abraçou, primeiro frouxamente, meio sem jeito, depois foi envolvendo-a melhor, aninhando-a em seu colo. Não achava que era um bom momento para isso, mas ela quase tinha morrido hoje... Ela merecia esse pequeno gesto de carinho.
 
Ignorando a dor nas feridas das costas, Shunrei deixou-se ficar nesse abraço, no calor do corpo dele, rezando para que isso pudesse amenizar as outras dores. 

– Achei que não ia mais te ver – ela confessou, à beira das lágrimas novamente. – Pensei em você sozinho, desse jeito... Sei que você é forte, que ia aprender a se virar, que vai aprender, mas até lá quem ia cuidar de você? Não queria deixá-lo sozinho. É por você que ainda estou aqui...

– Eu também não queria ficar sem você, Shunrei – o cavaleiro admitiu e já que tinha começado, prosseguiu. – Fiquei desesperado quando você estava se afogando. Ouvia a sua voz e não sabia de onde vinha. E mesmo que soubesse... duvido que seria capaz... Mas eu ia tentar... Eu juro que ia. Eu queria tentar salvá-la. 

Shiryu sentiu o rosto esquentar de vergonha. Raramente falava de forma  aberta sobre seus sentimentos. Não podia ver, mas imaginou que Shunrei também tinha enrubescido.

– Graças a Deus voltamos um para o outro – ela completou, e ficou mais um pouco ali nos braços dele, sem falar nada, até que precisou voltar à realidade. – Obrigada por isso, Shiryu. Sinto-me um pouco melhor, mas agora preciso fazer o jantar.

– De nada – ele respondeu, e Shunrei achou que o tom agora só continha tristeza. 

Na cozinha, Shunrei procurou focar-se na preparação da refeição, embora não estivesse com vontade de cozinhar. Quando terminou, chamou Shiryu e o Mestre, e os três jantaram em silêncio, o que era bastante incomum naquela casa. Normalmente conversavam sobre o dia de cada um, elogiavam a comida, falavam dos planos para o dia seguinte. Hoje, porém, apenas sentaram-se, silenciosos e cabisbaixos, e tomaram a sopa sem graça que ela tinha feito. 

O Mestre não comentou nada sobre a marca na face dela, mas depois do jantar, quando Shiryu estava outra vez sentado na porta, ele aproximou-se.

– Shunrei, não vai me contar o que realmente aconteceu? – inquiriu.

– Foi como eu disse, Mestre – ela respondeu. Estava lavando a louça e não se virou para falar com ele. – Eu estava me afogando e o Ohko me salvou. Isso no meu rosto foi quando eu me debati na água, acho que esbarrei em alguma pedra.

– Uma pedra muito estranha. Estou vendo cinco dedos bem marcados... 

– Não foi nada, Mestre...

– Que o Ohko bateu em você eu estou vendo, mas o que mais ele fez?

Ela finalmente virou-se e retrucou com firmeza: 

– Já disse que não foi nada.

– Você não quer falar, tudo bem. Eu estarei aqui quando você quiser conversar.

– Obrigada, Mestre, mas eu estou bem. Não tenho nada para conversar.

– Certo... Eu vou me deitar. Me procure quando quiser conversar.

Shunrei assentiu tristemente e continuou a lavar a louça. Quando terminou, recolheu-se em seu quarto. Pensou no que Shiryu falou mais cedo: "eu também não queria ficar sem você..." Seriam essas palavras um sinal de que ele também a amava? Mas se ele a amava, por que insistia em lutar, já que essas batalhas também a machucavam tanto? Por que não esquecia isso tudo? Ainda mais agora que estava cego... Ela não conseguia compreender. Podiam ser felizes juntos. Ela não se importava com a cegueira dele. Ela o amava como sempre, não fazia diferença. Ela seria a visão que ele não tem mais. 

De repente, ocorreu-lhe outro pensamento. E se ele se importasse com o que aconteceu a ela? Se ele achasse que era culpa dela? Que ela podia ter evitado? Pensar nisso fez o choro que ela engoliu o dia inteiro libertar-se de uma vez só. 

Tinha sonhado tanto que seu primeiro homem seria Shiryu, que seria algo carinhoso e romântico, no aconchego do seu próprio quarto, com luz suave, beijos apaixonados e juras de amor eterno. No entanto, foi violada com aquela brutalidade, no chão de pedras à beira do lago, ouvindo toda sorte de vulgaridade da boca de um homem que cheirava como bicho.

Ainda sentado na soleira, Shiryu pensava no quase afogamento de Shunrei. Não conseguiu salvá-la, não conseguiu sequer tentar, e se seu rival não tivesse aparecido, ela teria morrido. 

Como podia ter se tornado tão inútil? Não se sentia digno de ser mais nada, nem cavaleiro, nem homem para Shunrei. Queria sumir, ser apagado da história, como se nunca tivesse existido um Shiryu no mundo. Shunrei, o Mestre e seus companheiros sentiriam sua falta, mas logo superariam. O Mestre acharia que ele tinha sido fraco, que morreu por isso. E Shunrei... Queria deixar o caminho livre para que ela encontrasse um bom rapaz e se casasse com ele algum dia. 

Sabia que ela o amava, ela deixava isso claro o tempo inteiro, e ele também a amava, embora não conseguisse demonstrar como deveria. Mas como prendê-la a esse amor por um homem inútil, um cego rabugento, um peso morto, um saco de lixo? Ele se sentia extremamente mal e sentia que tinha de fazer alguma coisa para mudar essa situação, mas não sabia o quê. Resolveu ir para o quarto e começou a andar pela casa, tateando cautelosamente para não esbarrar em nada. Porém, no silêncio da noite, ouviu Shunrei chorando.

– É por minha causa – ele murmurou, sentindo um nó formar-se na garganta. – Eu devia mesmo deixá-la em paz. Libertá-la da obrigação de cuidar dessa porcaria que eu me tornei.
 
E nesse instante ele soube o que tinha de fazer. 

Deu meia volta e saiu de casa seguindo o barulho da cachoeira. Estava decidido a andar em linha reta até o chão faltar e seu corpo cair no vazio, destroçando-se nas pedras lá embaixo. Era a melhor solução para todos. Shunrei choraria sua morte, mas o tempo faria com que ela superasse. E algum dia ele se tornaria só uma lembrança. Um cheiro que se perderia na memória. Uma voz que ela já não lembraria muito bem como era. Uma foto no criado-mudo que se apagaria com o tempo. 

Que viesse o vazio... as pedras... os ossos quebrados... o fim.

Continua...

25 de abril de 2018

O Silêncio da Noite - Capítulo I - Correnteza

Sinopse: Shiryu está cego e Shunrei o leva para um passeio despretensioso que não acaba em tragédia porque Ohko aparece para salvá-la. Mas talvez fosse melhor ele não ter aparecido...
Shiryu x Shunrei. Drama. Romance. Realidade Alternativa. 
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Esta é uma fic de realidade alternativa que eu quis fazer em homenagem à primeira fanfic que eu publiquei, “O Perfume”, dez anos atrás. “O Casamento” foi escrita primeiro, mas Perfume foi publicada antes. Eu quis fazer uma versão alternativa e pesada do retorno do Ohko a Rozan, em busca de vingança... Eu gosto dele. Gosto de verdade. Acho um personagem muito interessante. Mesmo assim quis fazer essa versão. A ideia é acompanhar as consequências dos fatos dramáticos desse primeiro capítulo ao longo das sagas de Saint Seiya. Se vou conseguir? Não sei. Mas quero tentar. Provavelmente terei de adaptar alguns fatos do anime para encaixá-los melhor na fic. Foi muito difícil escrevê-la porque são meus personagens mais queridos sofrendo muito nesses primeiros capítulos, principalmente a Shunrei, mas a ideia é mostrar que eles podem superar o que houve.
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O rapaz rondava Rozan há dias. Espionava a área em busca da melhor hora para colocar em prática sua vingança quando ouviu gritos de mulher ao longe. Ele apurou os ouvidos. Os gritos não cessaram. Estava bem no alto de uma rocha, de onde podia ver o rio caudaloso que se alimentava das águas da cachoeira. Vislumbrou alguma coisa na água. Parecia um braço erguendo-se.
– Parece que alguém está se afogando... – ele murmurou com desdém. –Ah, dane-se. Não vou salvar ninguém.
Mas os gritos continuaram.
– Que droga! – ele exclamou. O braço ergueu-se outra vez e ele viu que se tratava de uma mulher. – Tá, acho que vou salvar essa infeliz...
Ele observou a correnteza com cuidado e viu o braço da mulher erguendo-se pela última vez, já exausto de lutar contra a força da água. Desceu correndo e mergulhou. Era um homem muito forte e acostumado a esse tipo de correnteza, a qual atravessou sem grandes dificuldades. Agarrou a garota com firmeza e puxou-a para fora da água, deitando-a na margem. Olhou fixamente o rosto dela e soube de imediato que era alguém que ele já conhecia.
– Sim... Eu não esqueceria esse rosto jamais... – ele murmurou, observando a face pálida. – Shunrei... Parece que não está respirando.
Ele encostou os lábios nos dela e soprou com força. Com ambas as mãos, pressionou o peito desnudo da moça. Repetiu o movimento várias vezes até ela começar a tossir e cuspir a água que engoliu. Ela abriu os olhos ligeiramente, fitou seu salvador com curiosidade e gratidão, perdendo os sentidos novamente em seguida.
Enquanto ela ainda estava inconsciente, ele observou-a longamente e sem o menor pudor, examinando cada parte do corpo dela.
– Como você cresceu, Shunrei – ele murmurou. – Que traços delicados, que rosto lindo. Essa pele tão alva... e os seios... acho que nunca vi seios tão bonitos...
Admirou-os e teve vontade de tocá-los, de preencher as mãos com eles, apertá-los, mordê-los. Desceu o olhar para a barriga lisa e firme, e mais abaixo, para as coxas fortes de quem estava acostumada a subir e descer a montanha. Subiu o olhar de novo e fixou-se no monte de Vênus, os pelos grossos e escuros protegendo aquela intimidade que, ele tinha certeza, ainda era intocada. E então um pensamento dominou a mente dele. Por que não? Ela estava ali, nua, provocando, se exibindo. Além do mais, seria mais um toque saboroso na vingança contra Shiryu. Ele sorriu decidido e pousou os lábios sobre um dos mamilos dela e sugou ávido, bruto, mordiscou.
– O que está fazendo? – ela berrou ao despertar assustada com o toque inadequado.
Ele não respondeu nada. Com as mãos, afastou as pernas dela. Shunrei  tentou fechá-las, tentou cobrir-se, mas ele impediu.
– Shhhh... estou conferindo o que devia ser meu tanto quanto a armadura de Dragão.
Então ela finalmente o reconheceu. Era Ohko, o antigo discípulo do Mestre Ancião, rival de Shiryu. Os dois nunca se deram bem, mas ela não teve problemas com o garoto no tempo que ele passou treinando. Pelo contrário. Ele a tratava bem, era até gentil com ela, na medida do possível.
– Pare com isso, Ohko! – ela gritou.
– Fique quieta! – ele ordenou, empurrando-a contra o chão de pedra. – Agora você me reconheceu, hein? Não acha que eu mereço um pagamento por salvar sua vida?
– Não! – ela gritou, e outra vez tentou desvencilhar-se do rapaz de olhar alucinado, mas foi inútil. Ele imobilizou-a contra o chão com mais força, tornou a abrir as pernas dela e enfiou dois dedos. Depois os tirou e levou à boca.
– Que sabor delicioso! – exclamou. – Tenho certeza que ele nunca provou, não é?
Shunrei não respondeu. Sua mente procurava um jeito de fugir dali. Não teria forças para enfrentar o rio de novo. Pensou em correr, mas sabia que ele a alcançaria facilmente. Estava sem saída. Gritar por Shiryu também não adiantaria, não na situação em que ele estava...
Ohko continuou olhando-a de forma lasciva e abaixou as calças apenas o suficiente para expor o membro já ereto.
– Ohko, não – ela suplicou, com lágrimas nos olhos. Não queria acreditar que o rapaz faria algo tão horrível. Ele foi um garoto rebelde, mas chegar a esse ponto era algo impensável. – Por favor... não...
– Você vai ser minha – ele disse pausadamente e riu alucinado. – Eu vou ser o seu primeiro homem. O Shiryu tomou a armadura de mim, eu vou tirar isso dele.
Ohko segurou-a com mais força e Shunrei ainda se debateu, tentou se desvencilhar, mas isso só serviu para ele empurrá-la ainda mais contra as pedras, ferindo-a nas costas.
– Ohko... não... – ela suplicou novamente, mas foi inútil.
Ele deu outra risada desvairada, afastou as pernas dela e meteu-se dentro com violência, como se arrombasse uma porta. Shunrei engoliu em seco o choro e a dor. Não queria que ele sentisse ainda mais prazer no seu sofrimento então ela não gritou. 
Ohko movia-se sobre ela e a cada movimento Shunrei sentia como se ele rasgasse seu ventre e seu coração. Ela fechou os olhos e rezou para que a tortura terminasse logo, mas ele estava demorando a se satisfazer. Gemia e gritava coisas vulgares enquanto a estuprava, mas ela ouvia sem dar atenção. Além da dor, da humilhação e da vergonha, ela sentia um nojo quase incontrolável, que estava lhe dando ânsia de vômito.
Quando ele saiu de dentro dela, Shunrei aliviou-se por achar que tinha acabado, mas foram apenas poucos segundos de alento. Ele a segurou como uma boneca, virou-a, colocando-a de quatro, e enfiou-se novamente dentro dela.
– Ohko, para... – ela implorou, inutilmente. – Por favor.
– Cala a boca. Eu sei que você está gostando.
Então ele continuou aumentando a força e o ritmo, até o espasmo final.
– Você não é mesmo digno – ela murmurou quando ele finalmente a soltou. Ainda queria não chorar, mas já não se controlava. – O mestre sabia. Ele sempre soube. Ele tinha razão ao expulsá-lo.
– Cale a boca! – ele gritou, e deu um forte tapa no rosto dela.
– O que é um tapa depois do que me fez? – ela gritou. – Maldito!
Shunrei correu para o rio e lavou-se da sujeira do chão e do próprio sangue. Só não desejou a morte por causa da situação de Shiryu. Lembrou-se dele sozinho na beira da cachoeira, gritou o nome dele e tentou correr, mas Ohko a alcançou facilmente e a derrubou no chão. Na queda, ela bateu a cabeça e desmaiou outra vez.
– Eu vou levá-la para ele! – ele disse. – Mas não vou dar ao babaca prazer de vê-la assim nua e deliciosa. Se ele quiser ver, que seja competente para isso!
Ohko então tirou o casaco surrado e malcheiroso que usava e vestiu-o em Shunrei. Depois, pegou-a nos braços e seguiu tranquilamente na direção do som da voz de Shiryu, que ainda chamava por ela.
Continua...

20 de fevereiro de 2018

Do Jeito Dela

 Sinopse: Enquanto tenta fazer Keiko dormir, Shiryu reflete sobre a paternidade e o futuro. Side story da trilogia "O Casamento", "Escute Seu Coração" e  “Esperando o Fim”.

Hoje eu estava lá trabalhando, fazendo um negócio chato do cacete, e lembrei que amanhã é aniversário da Keiko-chan! 27 anos! Mas na fic ela ainda está com dez meses e papai Shiryu andou pensando em como vai ser o futuro! É só uma ficzinha chuchuzinha que podia até ser parte do próximo capítulo de Esperando o Fim, mas eu queria postar logo, então postei!




DO JEITO DELA
Chiisana Hana

Será difícil entregá-la ao mundo
E manter um pedacinho pra mim
E bem no meio da sua brincadeira
Não poder te proteger
Será difícil
Mas será muito simples
Desde que você brinque
E continue a sorrir”(1)

Shiryu olhou para o relógio. Duas e meia da manhã, mas para Keiko parecia que eram duas da tarde. A bebê de dez meses estava ativa e brincalhona, mexendo nos cabelos e nos óculos do pai animadamente, enquanto ele morria de sono. Os olhos estavam pesados e ardiam, e a cabeça doía um pouco, consequência do vinho tomado na ceia de Natal.

A animação de Keiko era por conta disso também. Ele e Shunrei fizeram de tudo para que ela dormisse à tarde a fim de que ficasse acordada durante a comemoração. Deu certo, mas agora ela estava custando a pegar no sono e ele resolveu levá-la para o andar de baixo para deixar que Shunrei descansasse. Embora ele mesmo estivesse prestes a pedir arrego, ela, que estava grávida, precisava mais desse descanso.

Imaginou como será a vida quando o novo bebê chegar. Em dias normais, Keiko já dormia praticamente a noite toda, mas como seria quando o irmão acordasse chorando? Com certeza ela acordaria também...

“Melhor não me preocupar com isso agora”, pensou Shiryu e sentou-se no chão da sala com a filha. 

Procurou na caixa de brinquedos um que não fosse barulhento e deu a ela um ursinho que foi presente do avô.

“Aquele babão”, pensou e sorriu, sentindo-se pleno de gratidão por ele existir e fazer parte da sua vida. Dohko foi um Mestre rígido, mas sempre o tratou como um filho, e criou Shunrei com o mesmo sentimento, embora ela fosse parte de sua missão, por isso, era natural que ele amasse Keiko. Mais que isso. Ele salvou a vida dela. Salvou as vidas das duas. Não estariam aqui se não fosse por ele. E de repente, Shiryu flagrou-se pensando em como estaria se elas tivessem morrido naquele dia em Tinos.

“Largado em alguma sarjeta...”, constatou, imaginando-se bêbado, sujo, com a barba grande e o cabelo emaranhado, sem pentear há muitas semanas. Riu da própria imagem criada pela sua mente, mas a verdade é que, tirando a bebida e a sarjeta, era provável que estivesse desse jeito mesmo.

Shunrei era parte de sua vida desde que ele chegou à China, iluminando seus dias com seus sorrisos infantis, porque, apesar de tudo, ela conseguiu ser criança enquanto ele fora forçado a crescer rápido demais. Mais tarde, quando o amor floresceu, ela passou a ser a rocha que o sustentava. Desmoronaria sem ela...

E Keiko… o fruto desse amor. Ele ainda ficava maravilhado ao pensar em como era mágico que um pouco dele e um pouco dela fizessem algo tão perfeito quanto sua doce garotinha, que mesmo tendo nascido tão antes do tempo, se desenvolvia como um bebê normal. Desejava com tanta força que ela continuasse assim, que crescesse saudável, que fosse uma criança abençoada, como dizia o nome dela, e, mais tarde, se tornasse uma mulher feliz.

“Antes disso, você vai ser uma adolescente...”, ele pensou, rindo e tentando imaginar sua pequena nessa fase tão difícil. Visualizou-a como uma versão moderninha da mãe, com o mesmo sorriso franco mas com os olhos claros dele, usando um uniforme tradicional de escola japonesa, embora morassem na Grécia. Talvez um dia voltassem para lá, talvez não... 

A Keiko do futuro era uma boa garota, educada e estudiosa, mas certo dia entraria em casa e dispararia um “pai, tô namorando” e Shiryu ficaria prestes a um ataque de nervos.

“Ai, meu Deus...”, ele pensou. “Quando essa hora chegar eu vou querer morrer… Um moleque onanista(2) colocando as mãos na minha filhinha? As mãos e, ainda, pior, aquela outra coisa? Como é que um pai se prepara para isso, meu Deus? A minha princesinha…”

Alheia aos pensamentos do pai, Keiko jogou o ursinho longe e engatinhou até a caixa de brinquedos. Escolheu justamente um tecladinho barulhento que foi presente do tio Seiya.

– Esse agora não, meu amor – Shiryu disse a ela, pegando o brinquedo e recolocando na caixa. 

Keiko não gostou e fez uma carinha de choro quase irresistível, mas Shiryu se manteve firme. Deu a ela uma boneca de pano, que também foi jogada longe. Antes que a menina abrisse o berreiro, ele saiu de casa com ela, tentando evitar que a gritaria acordasse Shunrei.

– Você precisa aprender que as coisas têm hora e lugar para serem feitas... – ele disse, gentilmente, tentando acalmar a menina, enquanto caminhava em frente à casa. – Vamos, não fique chateada. Amanhã você vai brincar com o tecladinho.

Ela continuava com o bico de choro, mas não passou disso, não abriu o berreiro.

– Como seu pai, agora e pelo resto da vida, é só isso que eu posso fazer: educá-la, orientá-la, mostrar o caminho, e você vai segui-lo do seu jeito, com os erros e acertos que todos nós cometemos.

No balanço suave do caminhar de Shiryu, Keiko encostou a cabeça no ombro dele e agarrou uma mecha do cabelo.    

– Agora bateu o soninho, né? – ele perguntou. Começou a cantar baixinho uma velha canção de ninar chinesa, até ela adormecer.

– Sei que vai ser inevitável entregá-la ao mundo, só me resta torcer para ele seja gentil com você, meu amor...

Então ele lembrou a Keiko imaginária e sorriu.

– Tudo bem... Vai ficar tudo bem... Que você encontre um rapaz gentil, respeitoso, que a ame docemente, como eu amo sua mãe. Mas ele que se prepare… porque seu pai tem a Excalibur no braço e vai fazer um picadinho de moleque se ele ousar magoá-la.

Quase Sem Querer - Capítulo IX - Parabéns

– Prontinho – Shunrei anunciou enquanto admirava sua obra concluída: o bolo esculpido em formato de gato para o aniversário de Natássia. O...