7 de abril de 2013

Primavera Graciosa e o Dragão Roxo



Considerações Iniciais: Essa história nasceu de uma conversa muito louca com a minha querida amiga Saphira. Falávamos sobre japonês e a Saph analisava uns kanjis, até que tivemos a ideia de analisar os kanjis referentes aos nomes de Shiryu e Shunrei. Eu sempre tinha visto por aí que o nome da Shunrei significava “Flor do Campo”, “Bela Flor” e similares. Até que a Saph me chamou a atenção para uma coisa: não era flor, era primavera. Primavera Bela, Primavera Graciosa. Não uma só flor. A primavera inteira! Aí veio a ideia para essa história que eu considero uma das melhores coisas que escrevi. Amo demais e espero que vocês gostem também. 


PRIMAVERA GRACIOSA E O DRAGÃO ROXO
Chiisana Hana


“As coisas precisam seguir seu curso natural”, disseram-lhe como justificativa para confiná-la a um cômodo pequeno durante três quartos do ano. Para que não interferisse nas estações, só podia sair na primavera e algumas poucas vezes no começo do verão.  Fora dessas épocas, saía somente se fosse absolutamente necessário, como em caso de doença, mesmo assim, era carregada para que seus pés não tocassem o chão. Quando tinham condições, pagavam um riquixá, mas a mãe, viúva, mal podia manter as duas.  Não tinha os tradicionais e cruéis ‘pés de lírio’, felizmente. A mãe não tivera coragem de impor tamanho sofrimento à menina. Bastava a maldição que ela carregava desde que nascera. Além do mais, de que adiantaria ter pés de lírio se, do jeito que ela era, jamais arranjaria marido?
A mãe deu-lhe o nome de Primavera Graciosa porque já em seu primeiro banho, assim que os pezinhos tocaram a água, minúsculas florezinhas espocaram. Mais tarde, quando começou a aprender a caminhar, seus passinhos inseguros salpicavam o chão de flores e a mãe ia atrás, arrancando tudo que brotava.
Acostumou-se desde muito cedo a usar um sapatinho de sola reforçada com madeira e mesmo isso não era suficiente, pois onde seus pés tocavam, florescia. Às vezes, a depender do seu humor, brotavam do solo flores imensas em questão de segundos. Quando entrava na água, logo ninfeias e outras flores aquáticas começavam a surgir. Certa vez, quando se banhava no lago, tinham sido tantas que, com medo de emaranhar-se nas raízes, ela saiu correndo para casa, deixando no caminho um rastro de flores azuis.
Restrita a seu quartinho durante três estações, passava os dias sobre a cama, costurando e bordando. Quando eventualmente resolvia andar pelo cômodo, precisava sair arrancando as flores que brotavam. Apenas uma ela não teve coragem de arrancar: a touceira de flor do dragão, que aparecera num dia em que ela se sentia particularmente triste. Estava chovendo e ela queria sentir a chuva tocando-lhe a pele, mas a mãe não deixou que saísse. Então, saiu da cama, abriu a janela e esticou a cabeça para fora, molhando-se. Ali, no cantinho abaixo da janela onde seus pés tocaram, nasceu a planta. Lembrava que a tinha achado estranha quando viu surgir aquela coisinha meio feiosa parecida com um cacto. Sempre apareciam plantas de flores e folhas abundantes, nunca antes tinha nascido uma suculenta. Resolveu deixá-la ali por que era diferente, tal como ela mesma. Era só uma suculentinha sem flores afinal. Até que um dia a pequena surpreendeu-a com um tímido cacho de flores pendendo para baixo, como sinos, que se abriram quando ela chegou perto. Não eram lá muito bonitas, mas sem saber o porquê ela ficou encantada com o tom intensamente vinho delas, algumas quase roxas. Cheirou-as. Não tinham um perfume muito agradável, mas só se sentia se chegasse muito perto. Assim, deixou a flor do dragão ali, no cantinho do quarto, e se encantava toda vez que um novo cacho de flores surgia e se abria. A mãe contou-lhe uma lenda sobre a planta, dizendo-lhe que recebera esse nome porque surgira do sangue que jorrara de um dragão que fora morto por desvirginar uma donzela. Primavera Graciosa riu e disse que dragões não existiam. 
Quando a primavera chegava, seu dom, que a mãe chamava de maldição, era bem-vindo e, por algumas horas todos os dias, ela podia andar livremente, de pés descalços, deixando que tudo florescesse ao seu redor e na água onde se banhava. Voltava para casa satisfeita, sentindo-se livre e ansiando por outro dia, outra saída, mais algumas horas do lado de fora, milhares de flores ao seu redor.

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Ele tinha sido condenado a viver em sua caverna por toda a eternidade. Saía de lá poucas vezes, atravessando a cachoeira que escondia seu lar, e não podia se afastar muito dali. Era seu castigo por ter amado e ele o aceitou sem resistir. Não se arrependia de ter enfrentado tudo pela moça que tanto amara, mas já tinha sido há tanto tempo... Ele estava cansado de viver sozinho. Estava na Terra há milênios e enfrentava a solidão cumprindo sua missão de zelar pelas águas.
Sabia de tudo que acontecia lá fora através do que a chuva lhe murmurava. As gotas diziam o que haviam tocado e quando, falavam dos cheiros e dos sabores dos quais ele tanto sentia falta. Mas eram sempre as mesmas histórias e ele já estava cansado de ouvi-las através dos tempos. Até que um dia os murmúrios despertaram novamente sua atenção, pois falavam de uma moça com pés de primavera e ele não entendeu direito o que as gotas queriam dizer.
“Pés de primavera?”, perguntou. E as gotas disseram que onde os pés dela tocavam nascia uma flor. Ele se perguntou como nunca antes as gotas tinham falado dela e, embevecido, chamou o vento e disse que entregasse a ela um presente. Soprou uma sementinha vaporosa da flor que tinha seu nome e o vento, seu amigo, levou até ela.
As gotas disseram que ela ficara maravilhada com o presente e que mantivera a plantinha em seu quarto. O dragão sentiu-se iluminar. A partir de então, passava os dias ansiando por notícias da tal moça com pés de primavera. Ouvia atento tudo que o vento, a chuva e a terra lhe diziam. Até que as notícias pararam de chegar. Simplesmente não tinham visto mais a moça. Ele então se enfureceu e provocou uma tempestade. Choveu por vários dias e noites sem parar e ele pedia notícias à chuva, mas ela não sabia nada. E ele se impacientava cada vez mais, mandava mais chuva, mais chuva.
Pediu ajuda à terra, implorou que lhe dissesse onde ela estava, mas a terra disse que não sabia dizer onde encontrá-la.
Os dias passavam e ele continuava fazendo chover na tentativa de encontrá-la. O vento compadeceu-se dele e soprou as janelas com força, procurando-a. As gotas perguntaram ao rio se a tinham visto, mas ele disse que há muito ela não aparecia. E o dragão mandava mais chuva...

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Sob o retumbar dos trovões e a chuva torrencial, vários aldeões reuniram-se em frente à casa de Primavera Graciosa.
“Como é?”, perguntou a mãe. “Querem que ela saia?”
“Sim!”, responderam em coro.
“Já passa da época desse inverno maldito acabar”, disse um.
“Desse jeito, vamos morrer afogados”, outro completou. “Primavera precisa sair para acabar com a chuva.”
“E quem garante que se ela sair, não vai florescer tudo desenfreadamente e continuar a chover mesmo assim?”, argumentou a mãe.
“Precisamos arriscar”, foi o que ela ouviu em resposta e, resignada, foi chamar Primavera. A moça encontrava-se encolhida na cama há semanas, sem ânimo para se mexer, desde que a mãe arrancara sua flor de dragão. Nesse dia, Primavera tinha ficado de pés no chão por horas e o quarto inteiro cobriu-se das mais variadas flores, exceto a do dragão. Entristecida, resumiu-se à cama. Só saía dali para assear-se, com seus sapatinhos reforçados, e passava os dias encolhida, numa melancolia de dar dó. Sobressaltou-se quando a mãe entrou no quarto de chofre.
“Venha, filha”, disse ela. “Os vizinhos estão chamando.”
“Eu não quero ver ninguém”, grunhiu Primavera, arisca, e cobriu-se com o lençol.
“Eles querem que você saia.”
Primavera deu um salto e abriu um sorriso luminoso.
“Sair? Sim, eu vou! E na chuva! Eu sempre sonhei em sair na chuva!”
Descalça, colocou um pé para fora de casa e ali brotou uma touceira de roseira-brava, deu outro passo, brotou um pé de gerânios. Foi andando, sentindo a chuva no rosto, nos cabelos. Que alegria sentia! Rodopiava pelo chão enlameado e escorregadio, caía, levantava, tornava a rodopiar, as flores espocando sem controle onde os pés tocavam. Maravilhados com o espetáculo, os aldeões demoraram a notar que os trovões cessaram e a chuva começava a diminuir.
Em sua caverna, o dragão acordou com o burburinho da chuva. Todas as gotas falavam ao mesmo tempo em que ela apareceu, que estava dançando sob a chuva, e a terra contava que ela estava feliz e por isso saíam as flores mais bonitas estavam saindo dos seus pés, e o vento entrelaçou-se aos cabelos negros dela e trouxe seu perfume, que o dragão aspirou enlevado.
Na casa de Primavera, irromperam centenas de flores do dragão, com seus cachos violáceos, e a cada minuto surgiam novos brotos e eles cresciam em segundos e saíam mais cachos de flores.
A chuva cessou por completo e sol se abriu, mas Primavera continuou dançando lá fora. A mãe quis forçá-la a entrar, mas ela se recusou. Corria alegre, agora com o sol tocando seu rosto pálido. Até que, num rodopio, faltou-lhe o chão. Estava flutuando, sendo carregada pelo vento. Alguns aldeões tentaram segurá-la, mas foi inútil, o vento a levava mais alto e mais longe a cada lufada. E ela deixava-se ir, deliciando-se com a sensação de voar livre mesmo sem ter asas, sentindo-se uma pétala ao sabor do vento.
Pousou horas depois na beira de um lago onde caía uma cachoeira, não sabia a que distância de casa, mas certamente muito longe. De trás da cortina de água, saiu um dragão. Ela não se assustou. Olhou extasiada para o animal mítico, que ela nem acreditava que existia, e suas escamas arroxeadas, os expressivos olhos azuis, as poderosas garras que saíam dos dedos dele.
Quando o dragão se aproximou, dos pés de Primavera brotaram mais flores de dragão, milhares delas, abrindo-se por todos os lados, mesmo em lugares onde os pés dela nunca haviam tocado, um redemoinho de sinos vermelho-arroxeados, saindo da terra aos borbotões.
Com sua voz profunda, o dragão pediu que ela subisse em seu dorso. Ela o fez. Mesmo assim as flores não paravam de brotar. Agarrou-se aos longos bigodes do animal, ele deu uma guinada para frente e Primavera teve de segurar-se com mais força para não cair. O dragão flutuou, rodopiou no céu, e voou em direção à cachoeira, atravessando-a. Do outro lado, sua imensa caverna, que tinha um brilho nacarado, como o interior de uma concha, e abria-se para um vale verdejante. Primavera olhava o lugar extasiada. Estava acostumada a ver as plantas brotarem sem controle ao seu redor, mas nunca tinha visto nada tão bonito quanto o vale.
Acariciou o dragão e beijou-lhe as escamas, sentindo-se em comunhão com aquele ser que amou sem saber desde o dia em que a primeira flor de dragão abriu-se em seu quarto.
Quando enfim desceu do dorso do animal, tamanha foi a surpresa de Primavera ao ver que estava livre. Ali o chão não florescia ao toque dos seus pés.


Continua...