12 de dezembro de 2020

Quase Sem Querer - Capítulo II - Amigos


Shun tocou quatro vezes a campainha do apartamento de Hyoga, até que o loiro finalmente veio atender, de pijamas e esfregando os olhos. Natássia veio logo atrás dele, saltitando de alegria, usando somente o short que vestia no dia anterior.

Oi, tiooooo! – ela gritou e agarrou-se às pernas de Shun.

Boa tarde, dorminhocos – Shun cumprimentou. Estava carregado de sacolas.

Estávamos dormindo até agora… – Hyoga explicou, sentindo-se meio desorientado. – Aliás, que horas são mesmo?

Quase uma da tarde!

Nossa! Você deve estar com fome, né, filha? – ele perguntou. Sentiu que estava começando mal, que seria um péssimo pai por ter dormido tanto, sem pensar na refeição da menina. Depois pediu calma a si mesmo. Era só o primeiro dia. Acabaria aprendendo, por bem ou por mal.

Fome? – ela indagou, piscando repetidamente os grandes olhos cinzentos. – Sim! Muuuuuuuuita fome, papai!

Eu imaginei. – Shun balançou as sacolas. – Trouxe almoço pra vocês.

Shun, não sei o que seria de mim sem você. Entra. Vou escovar os dentes e… ok, devia ter comprado escova de dentes para ela. Nem pensei nisso. Ainda não tive tempo de pensar em nada.

Eu pensei – disse Shun, erguendo uma sobrancelha de modo cômico. – Passei na farmácia e comprei escova, creme dental infantil, xampu, essas coisas. No caminho para cá, também passei por uma lojinha de roupas infantis e comprei algumas peças, umas calcinhas. Ela não pode ficar só com essa roupa de ontem!

Você tem toda razão – Hyoga disse, sem conseguir evitar sentir-se novamente um péssimo pai.

Roupas bonitas, tio? – Natássia perguntou a Shun.

Acho que você vai gostar, Nat – Shun disse e balançou no alto a sacola com as roupas, que ela saltou e tentou agarrar. – Só vou dar depois que lavar o rosto e escovar os dentes. – Ele entregou a sacola da farmácia a Hyoga. – Eu vou esquentar o almoço. Você pegue sua filha e vá logo para o banheiro.

Hyoga obedeceu a ordem de Shun e pegou Natássia no colo.

Você dormiu bem? – ele perguntou a ela, enquanto tirava da sacola a escova que Shun comprou.

Como é? Deixa eu ver! – ela pediu, ansiosa. – Quero ver, papai! Me dá logo!

Calma! Não vai fugir. Responde para mim. Você dormiu bem?

Eu dormi bem demais! Agora deixa eu ver! – Ele entregou a escova a ela. Ah, é de ursinho! Eu amei! Eu amei!

Ele sorriu, colocou um pouco de pasta na escova, molhou e deu novamente a ela.

Você sabe fazer isso, não sabe? – perguntou.

Eu acho que não lembro…

Então ele pegou a própria escova e foi mostrando a ela, que repetiu tudo certinho.

Muito bem, você é uma menina inteligente – ele cumprimentou, dando um beijo no rostinho dela.

Claro que eu sou, papai! Agora vamos, quero ver minhas roupas novas! Vem, vem, papai! Anda!

Hyoga foi acompanhando-a, praticamente arrastado por ela, e quando chegou na cozinha o cheiro da comida que Shun esquentava fez sua barriga roncar alto. Lembrou-se que não comia nada desde o começo da noite anterior. Ele e Natássia sentaram-se à mesa, e Shun os serviu.

Trouxe arroz e frango frito – Shun disse. – Achei que isso seria mais fácil de agradar o paladar infantil. Você gosta de frango frito, Natássia?

Eu não sei. Deixa eu ver. O cheiro é bom, tio!

Shun sorriu e sentou-se para comer com eles. Natássia olhou curiosa os dois homens comendo com hashis.

– Não sei fazer isso! – ela exclamou.

Com o tempo você vai aprender – Shun disse e deu a ela uma colher que pegou na gaveta de talheres.

Você é um anjo, Shun – Hyoga disse admirando-o. – Fazer isso por nós depois de 24 horas de plantão! Só você mesmo.

Eu sou seu amigo, estou acostumado a não dormir e vocês merecem. Estão começando agora uma nova família!

Estou feliz por ter você aqui. – Sem pensar, Hyoga segurou uma das mãos de Shun entre as suas. – De verdade.

Está me deixando sem graça – replicou o médico, realmente envergonhado. – Come aí seu franguinho.

Está delicioso. Depois acho que tenho que sair. Você está certo, preciso comprar coisas para ela.

Eba! Comprar coisas! – Natássia gritou, com a boca cheia de frango e arroz. – Eu adoooooro!

Querida, não deve falar com a boca assim tão cheia – corrigiu Hyoga, em um tom carinhoso. – Engula a comida primeiro.

Assim, papai? – ela perguntou, depois de engolir como Hyoga disse.

É, amor – ele respondeu, fazendo um carinho na cabeça dela. Depois dirigiu-se a Shun: – Vou preparar o quarto de hóspedes para ela.

Eu quero continuar dormindo com o papai! – protestou Natássia.

Não. Você precisa ter seu quarto. Vou deixar você escolher umas coisas bem legais pra colocar lá, você não quer comprar coisas legais?

Então assim eu quero um quarto só meu!

E você tem que comprar roupas, sapatos, coisas que ela precisa – completou Shun. – Eu só trouxe duas mudas de roupa, ela precisa de mais. Eu vou com vocês.

Tem certeza? Você estava de plantão, cara.

Eu vou e pronto. Não tente me impedir.

Hyoga assentiu. Sabia que não conseguiria detê-lo. Os três terminaram a refeição e enquanto a menina se divertia abrindo os pacotes das roupas, os dois homens lavavam os pratos e conversavam.

Passei no laboratório e dei uma olhada nos resultados dos exames – Shun disse. – Do ponto de vista sanguíneo, ela é completamente saudável. E humana. Seria bom levá-la ao curandeiro do Santuário para que ele avaliasse outras coisas, mas fisicamente garanto que ela está ótima.

Quantos anos acha que ela tem? – Hyoga perguntou.

É difícil saber assim, mas acredito que entre cinco e seis. Me diz, o que você vai fazer com ela à noite quando for para o bar?

Eu não sei! – disse Hyoga levando as mãos à cabeça. – Não pensei. É muita coisa pra pensar tão de repente.

Quer que eu fique com ela?

Não, Shun. Você também precisa dormir! Eu vou dar um jeito.

Eu realmente posso ser esse jeito. Posso ficar com ela.

Não vamos começar a explorar você agora, Shun. Depois talvez a gente explore. Com certeza a gente vai explorar, mas por enquanto, não.

Que tal Shiryu? – Shun sugeriu. – Será que ele e Shunrei não podem ficar com ela hoje?

Boa ideia. Vou ligar pra ele – disse e pegou o celular. Achou o número de Shiryu e chamou. O amigo logo atendeu. – Shiryu, você está ocupado hoje?

Na verdade, não. O que foi?

Preciso te pedir um favor imenso – disse o loiro, dramatizando. – Não tenho mais ninguém a quem recorrer.

Parece sério. Pode pedir, você sabe que pode.

Eu adotei uma criança. Uma menina.

É o quê? Repete! – Shiryu perguntou depois de alguns segundos de silêncio, tentando entender se tinha ouvido corretamente. Era só o que faltava, além da tendência a ficar cego, agora estava ficando meio surdo?

É isso. Eu adotei uma menina. Vou te contar tudo direitinho, mas preciso que você e Shunrei fiquem com ela essa noite. Shun está aqui em casa, ofereceu-se pra ficar, mas ele estava de plantão, e já vai me ajudar hoje à tarde. Se continuar assim ele vai acabar virando o Dr. Zumbi.

Eu disse a ele que ficava com ela mesmo assim! – Shun falou bem alto a fim de que Shiryu também ouvisse.

É, mas ele precisa descansar… E não quero levar ela para o bar. Deixo ela aí no começo da noite e pego de manhã cedinho. Por favor, somente essa noite. Amanhã vou arrumar alguém para ficar com ela aqui em casa. Me ajuda, Shiryu!

Calma, cara! Eu só estou meio chocado com a novidade, mas é claro que pode trazer a menina para cá. Shunrei não está em casa agora, mas tenho certeza que ela vai adorar.

Você me salvou, amigo!

Não faça tanto drama. Traga a menina para conhecermos e ouvirmos essa história inteira. Vai ser um prazer.

Tudo resolvido – Hyoga disse a Shun depois de desligar. – Shiryu pode ficar com ela.

Quem tem amigos, tem tudo, não é assim o ditado? – o médico riu e deu um tapinha nas costas de Hyoga.

Sim, era verdade. Ele pensou que podia fazer isso sozinho, mas precisava de ajuda. Felizmente, tinha bons amigos a quem recorrer.

Vou dar um banho nela e depois tomar um também – ele disse. – E aí a gente vai às compras.

– Certo. Eu termino as coisas aqui na cozinha. Me chame quando terminar o banho dela. Eu a arrumo enquanto você se banha.

Hyoga fez exatamente como Shun disse e quando terminou de se aprontar, Natássia já estava usando o vestido amarelo que o médico trouxe e ele já estava penteando os longos cabelos dela.

Você quer uma trança? – Shun perguntou.

Sim! Trança, tio!

Shun então separou o cabelo fino dela em mechas e fez uma intrincada trança francesa. Hyoga pensou que jamais seria capaz de reproduzir aquilo.

Ficou linda! – Hyoga disse, aproximando-se do dois. – Vamos?

Os três partiram para o shopping, onde compraram mais algumas roupas e sapatos para Natássia. Depois, na loja de móveis, Natássia escolheu tudo cor-de-rosa: cama, guarda-roupa e penteadeira. Mais tarde, ela viu um urso polar na vitrine de uma loja e cismou que queria. Hyoga não resistiu e comprou. Quando terminaram, já estava na hora de levá-la para a casa de Shiryu, então os três seguiram para lá.

Natássia, esses são o tio Shiryu e a tia Shunrei – Hyoga disse quando o casal os recebeu. A menina olhou os dois de cima a baixo, arregalando os grandes olhos cinzentos e analisando-os.

Oi, tios – disse, meio desconfiada. A gata gorducha do casal veio cumprimentá-la. – Um gatinho! Olha, papai!

Você gosta? – Shunrei perguntou. – Ela tem filhotinhos. Quer ver?

Querooooo!

Shunrei segurou a mão de Natássia e levou-a para ver os filhotes.

Pronto. Shunrei já ganhou ela – disse Shiryu. – Filhotinhos nunca falham. Golpe certeiro. Agora entrem aí e expliquem essa história…

Claro. Mas antes, você está bem mesmo? – Shun perguntou. – Shura me disse que sua luta foi muito dura.

Estou bem, sim. Você sabe, é o de sempre, sangrar pra caramba, ficar cego de tão fraco, voltar a enxergar… Já estou acostumado. Agora explica essa filha que apareceu de repente, Hyoga.

Bom, eu lutei contra ela – Hyoga confessou baixinho para que a menina não ouvisse.

Lutou? Ela deve ter o quê? Cinco anos?

Ela estava possuída por um Sem Rosto. O miserável usou uma criança! Quando eu o derrotei, o corpo da menina foi libertado. Achei que ela estava morta… Mas não. Ela não se lembrava de nada, nem do próprio nome… Era como se tivesse nascido naquela hora. Estava assustada, com medo. Eu simplesmente não pude deixá-la…

Me dê um minuto pra digerir toda essa história…

Eu também precisei desse minuto – Shun disse. – Compreendo perfeitamente.

Sei que é complicado… – admitiu Hyoga. – Mas eu simplesmente não podia fazer de outra forma… Preciso deixar ela aqui hoje, mas já entrei em contato com algumas pessoas. Preciso arrumar um barman com urgência pra ficar no meu lugar. Depois vou delegar funções, promover um bom funcionário que tenho a gerente, e aí terei mais tempo para ela, não vou precisar ficar o tempo todo no bar. Ficava porque não tinha outra coisa para fazer, mas agora tenho uma filha.

Agora você é um pai solteiro – reforçou Shiryu. – Eu diria que isso tudo é uma loucura, uma grande, imensa loucura, mas estou vendo como você está decidido e acho que não vai se arrepender.

Não vou. Tenho certeza disso. Vou cuidar de Natássia pelo tempo que a vida dela durar. Bom, agora tenho que ir. Pego ela amanhã cedo. – Ele entregou a Shiryu uma mochila com algumas das coisas que tinha comprado para Natássia. – Só saio do bar lá pelas duas da manhã, não vou te incomodar a essa hora.

Tudo bem! Fique tranquilo. Vamos cuidar dela. Só acho bom se preparar porque é capaz de ela querer um gatinho dos nossos.

Com certeza! – completou Shun.

Não inventa, Shiryu! Já estou pensando como vou dar conta dela, imagina arrumar um gato agora!

A sua sorte é que eles ainda não desmamaram…

Nat, vem dar tchau pro pai – ele chamou, aliviado pela informação.

Ela veio com um gatinho branco no colo.

Olha, pai! Quero esse!

Eu avisei… – riu Shiryu, e olhou cúmplice para Shunrei.

Nat, agora não vai dar…

Mas eu quero!

Nat, ele ainda é muito bebê – explicou Shunrei. – Precisa da mãezinha dele. Quando ele crescer um pouco, veremos como vamos fazer.

Mas é meu, não é?

Shunrei olhou para Hyoga, buscando uma resposta.

É seu – ele disse – mas ele vai morar aqui na casa do tio Shiryu e você virá vê-lo sempre que quiser, tá bom?

Natássia pensou um pouco e respondeu:

Então tá bom!

Aliviado, Hyoga abaixou-se e deu um beijo nela.

Agora eu tenho que ir. Comporte-se bem!

Tá, papai.

E eu também já vou – Shun avisou e também abaixou-se para se despedir dela. – Não vou ganhar beijo?

Claro que vai! – Ela deu um beijo no rosto de Shun e ganhou um dele. – Quando você vem me ver de novo?

Eu não sei, mas vou fazer tudo pra que seja logo!

Logo é bom! Tchau, tio! Tchau, pai.

Natássia virou-se sem cerimônias e voltou aos gatinhos, deixando um Hyoga desolado para trás.

Ela se despediu tão facilmente lamentou-se o russo.

É assim mesmo – Shiryu riu. – Vá se acostumando.

Continua… 

Quase Sem Querer - Capítulo I - Papai

 

Os personagens de Saint Seiya pertencem a Masami Kurumada e os do Episódio G Assassino a Megumu Okada. Com minhas fanfics não ganho nada além de satisfação pessoal.

Avisos: Contém spoilers do mangá Episode G Assassin e relacionamento amoroso entre homens. Se não curte, não leia.



QUASE SEM QUERER

Chiisana Hana

Capítulo I – Papai



Shun, você pode me ajudar? – Hyoga pediu ao telefone.

Shun geralmente adivinhava o estado de espírito do amigo somente pelo tom da voz, mas dessa vez não soube interpretar direito. Achou que ele parecia no mínimo confuso. O tom era urgente, mas ele também parecia feliz.

O que houve? – perguntou o cavaleiro que tinha se tornado médico. – Alguma coisa séria?

Eu fiz uma coisa… Onde você está? No hospital?

Sim, estou de plantão hoje. Você está me deixando nervoso, Hyoga.

Posso ir aí?

Claro. O plantão está tranquilo, mas venha logo porque esse mistério todo está me deixando louco.

Estou indo. Me espere.

Cerca de meia hora depois, Hyoga bateu à porta da sala do Dr. Amamiya. Mesmo depois de anos, ele ainda achava incrível Shun ter conseguido tornar-se um médico depois de tudo que aconteceu nas batalhas. O vestibular difícil, o longo curso, a residência, ele tinha passado por tudo isso e agora construía uma bela carreira como emergencista.

Shun abriu a porta e cumprimentou Hyoga, mas logo olhou para baixo e viu uns bracinhos infantis agarrados à perna do amigo. Abaixou-se para ficar na altura da criança e estendeu a mão, ainda sem compreender. A menina olhou desconfiada para ele, mas segurou a mão oferecida.

Olá. Eu sou o Shun – ele cumprimentou a menina de cabelos e olhos cinzentos, sorrindo de forma amigável.

Papai, ele é seu amigo? – ela perguntou a Hyoga, ainda desconfiada.

Shun ergueu o olhar para Hyoga como se tivesse sido espetado por uma das rosas de Afrodite.

Pa-pai? – ele perguntou, incrédulo, erguendo as sobrancelhas, já que até ontem Hyoga não tinha filha nenhuma.

Era isso que eu precisava te contar – o russo explicou.

Bom, eu estou muito surpreso – declarou, convidando-os a entrar na sala. – Agora me explica direito isso.

Ainda não posso explicar direito – ele disse e apontou para a menina. Shun entendeu que ele não queria falar na frente dela. – Eu vou te contar tudo depois, mas o fato é que decidi ficar com ela. Eu nem pensei, só resolvi e pronto. Queria que você a examinasse para ver se está bem mesmo. Tivemos um… problema...

Claro – ele disse, pegando o estetoscópio e o termômetro e dirigindo-se à menina. – Como você se chama?

Natássia! – ela respondeu alegremente. Já não parecia desconfiada. – Papai me deu esse nome e é tão lindo! Eu amei!

É um lindo nome, sim – Shun disse, auscultando o coração e os pulmões dela. – Agora respira bem fundo. Isso mesmo.

Shun prosseguiu o exame, aferiu a temperatura, checou a garganta, tomou-lhe o pulso.

Aparentemente ela está ótima – ele concluiu, ao terminar de examiná-la. – Vou pedir alguns exames por precaução. Coisa simples, tipagem sanguínea, hemograma completo, essas coisas.

Isso. Peça um check-up completo. Amanhã trago ela pra fazer.

Posso fazer agora, dou entrada nela como urgência, o laboratório faz tudo logo e em algumas horas fica pronto.

Hyoga assentiu e Shun rapidamente fez as prescrições e levou os dois para o laboratório de coleta.

Segure ela bem – advertiu o médico. – Crianças são imprevisíveis quando veem a agulha…

Agulha? – Natássia perguntou, arregalando os já grandes olhos cinzentos. – Agulha não, papai!

É só uma picadinha, Natássia – Hyoga disse, tentando confortá-la com um afago, mas Natássia começou a gritar e se debater e ele precisou segurá-la realmente com força.

Eu te avisei – disse Shun, ajudando Hyoga a segurá-la quando o técnico veio com a seringa.

Pronto. Acabou. Não precisa mais chorar – Hyoga disse, acalentando-a depois da coleta. – Foi só para saber se você está com saúde, querida.

Não quero mais agulha! Nunca mais!

Não vai ter mais…

Você prometeu que ia me proteger do que me dá medo!

Sim, mas isso é para o seu bem, querida.

Que tal um pirulito? – ofereceu Shun, mostrando a ela o doce em formato de coração que costumavam oferecer às crianças na coleta.

Natássia pegou o doce e enfiou na boca. Rapidamente parou de chorar. Sorrindo, Shun os chamou para voltar a sua sala. Entretanto, quando se dirigiam para lá, ele recebeu um chamado pelo sistema de som do hospital.

Eu preciso atender – ele disse. – Fiquem na minha sala e me esperem. Precisamos conversar.

Hyoga fez o que ele disse e ficou ali com Natássia, tentando distraí-la, mas quando Shun voltou à sala, cerca de meia hora depois, ela estava dormindo no colo do novo pai. Ansioso para saber o que estava acontecendo, Shun aproveitou o momento.

Agora que ela dormiu, você pode me contar o que está acontecendo? – perguntou. – Não entendi nada.

Depois de um longo suspiro, Hyoga começou a falar sobre a batalha onde enfrentou a menina enquanto ela estava possuída pelo "deus do Mar", sobre a "morte" dela e como ele quis preservar o corpo colocando-o em um esquife de gelo.

Aí de repente alguma coisa aconteceu e ela estava viva – ele concluiu. – É isso. Ela era um amontoado de cadáveres, mas de repente, não sei como, criou vida. Não lembrava de nada, era como se ela tivesse nascido ali naquele momento. Estava tão assustada, com tanto medo... Ficou me chamando de pai... Então eu decidi… Eu sei que é loucura, ainda não dá nem pra saber o que ela é, se ela é humana… Tem forma humanoide agora, mas não sei. Só sei que eu não podia largá-la por aí. Não sei de onde ela veio e creio que vai ser impossível descobrir. Não sei nem se ela é deste mundo, deste tempo… Você sabe, muitas coisas fora do comum acontecendo nos últimos dias. Tem um Shura adolescente andando por aí!

Logo teremos uma ideia do que ela é… – Shun disse, referindo-se aos exames. – Não se preocupe, o pessoal daqui do hospital está acostumado com coisas diferentes… Se houver algo, não vai sair daqui.

Hyoga assentiu e Shun, que estava sentado numa cadeira de frente para ele, aproximou-se um pouco mais e segurou a mão do amigo.

O que você está fazendo por ela é de uma coragem imensa, Hyoga. Já é difícil quando você se torna pai de um bebê que esperava, tratando-se de uma criança maior, totalmente inesperada, e sendo você um homem solteiro, a coisa fica ainda mais complicada.

É, sei que vai ser complicado, mas não podia simplesmente ignorar essa criança que foi usada pelo mal, seja lá o que ela for.

Quero que saiba que pode contar comigo para o que precisar. Você não está sozinho, não. Eu vou te ajudar a cuidar dela.

Eu agradeço demais, Shun. Por tudo que sempre fez por mim, desde aqueles tempos, os tempos de batalha, até agora...

Estarei sempre aqui pra você. Sempre.

Sabe, eu não estou fazendo isso só por ela – Hyoga confessou a Shun, num tom envergonhado. – É por mim também. Estou com trinta e quatro anos... Sempre me virei bem sozinho, pelo menos acho que sim, e até gostava dessa liberdade, mas cheguei a um ponto em que estava sentindo falta de alguma coisa que eu não sabia o que era. Tenho dinheiro, meus negócios vão bem, tenho um apartamento confortável, sou bonito. – Shun riu. – O que é? Eu sou. Não negue.

Você é – Shun admitiu.

Mas ainda faltava algo – Hyoga prosseguiu. – Então ela apareceu e de repente eu soube... Eu podia deixá-la no orfanato e seguir minha vida, apenas checando de vez em quando se ela estava bem, mas eu não quis. Eu senti naquela hora que tinha de me tornar o pai dela. E quando ela me perguntou como se chamava, eu não pensei duas vezes e dei a ela o nome da minha mãe.

Ela é sua filha agora. Foi uma bela homenagem.

Sim… Minha mãe deve estar orgulhosa de mim, não é?

Ela não teria motivos para não estar. Você é e sempre foi um cara incrível.

Então, eu vou indo – ele disse ao sentir que começavam a entrar em um terreno perigoso onde sentimentos guardados muito profundamente podiam aflorar. Levantou-se do sofá com a filha no colo. – Já está quase amanhecendo. Preciso dormir um pouco. E ela precisa dormir numa cama, não no sofá da sua sala.

Passo na sua casa quando sair do plantão.

O loiro assentiu com um gesto e já ia saindo quando Shun o chamou de novo.

Hyoga, conte comigo para o que precisar. Eu vou repetir: sempre estarei aqui para você.

Hyoga sorriu de um jeito que Shun vira poucas vezes ao longo dos muitos anos de amizade. Um sorriso terno, amoroso, de felicidade simples e pura, o qual iluminou o dia de ambos.

Continua...


26 de dezembro de 2018

A Coisa Mais Importante - Capítulo III - Mundo Quase Perfeito



Às vezes fico sonhando
Num futuro distante
Estaremos nós
E me dá um nó
Porque sei que o presente
É incerto e ausente
E a realidade dói
Você mudou meu jeito de sentir
Tua coragem me fez ver
Da forma que eu nunca vi
Iluminou tantas sombras em mim
Nunca negou meu jeito de existir
Pegou no colo a criança abandonada
Que não podia dormir”(1)


Acho que vou nadar – Shunrei disse, alongando-se à beira do lago. – Está tão quente hoje!

Como a tarde estava bonita e ensolarada, ela e Shiryu desceram parte da montanha levando uma cesta com lanches. Enquanto ele continuava a se recuperar dos ferimentos de batalha, os dois experimentavam a doçura do começo de namoro. Apesar de morarem juntos desde a infância, achavam engraçado como tudo parecia diferente nesse último mês, desde que se tornaram de fato um casal e já não precisavam mais esconder os sentimentos. Viviam trocando beijos e carinhos pela casa e fazendo planos, coisas que ele julgava serem impossíveis mas que ela sempre acreditou que aconteceriam.

Pelo amor de Deus, fique na beirada – Shiryu pediu, sentando-se em uma pedra. Ainda estava andando com o auxílio do cajado e descer a montanha forçou um pouco o joelho. – Não sei se tenho condições físicas de salvar você se acontecer algo.

Quem disse que vou precisar ser salva?! – ela protestou com uma careta. – Eu sei nadar muitíssimo bem!

Sei disso, mesmo assim tome cuidado.

Ela deu uma piscadela travessa e tirou o vestido, exibindo o biquíni novo, um modelo amarelo simples e bastante comportado.

Você não quer vir? – ela perguntou.

Agora não… – ele respondeu, envergonhado pelo que estava sentindo.

Não estava acostumado a vê-la com tão pouca roupa por isso foi inevitável que os hormônios começassem a se agitar. Não era uma sensação nova, afinal o acompanhava desde o começo da puberdade, desde que seu próprio corpo mudou e que as mudanças no dela também ficaram evidentes. Ele sempre teve uma postura extremamente respeitosa, mas agora a situação era diferente e cada vez que a beijava vinha aquela vontade de ver mais, de ter mais…Vê-la caminhando até o lago de biquíni só fez essa vontade crescer com uma força quase incontrolável, de modo que seu corpo começou a reagir.

Tentou pensar em outras coisas, coisas práticas, reparos que pretendia fazer na casa quando estivesse completamente saudável, compras que precisava fazer, mas o pensamento inevitavelmente voltou ao biquíni, às coxas fortes dela, ao bumbum bem desenhado, aos seios, e a tudo que ele queria ter nas mãos, nos lábios, sob e sobre seu corpo. Desejava fazer amor com Shunrei, mas estava certo de que ela achava cedo demais para isso e queria esperar o tempo dela, embora estivesse ficando cada vez mais difícil.

Resolveu entrar no lago para tentar relaxar. Com o auxílio do cajado, levantou-se, caminhou até a beirinha e entrou na água até um ponto que cobriu a cintura. Olhou ao redor procurando Shunrei e a viu longe, em cima de um patamar de pedra, preparando-se para saltar.

Teimosa – ele murmurou. – Falei para tomar cuidado…

Shiryu fixou o olhar nela, atento para qualquer problema. Shunrei alongou-se e saltou graciosamente. Ele continuou olhando, esperando ela emergir.

Shiryu!! – ela chamou rindo e acenando para ele quando subiu.

Ele acenou de volta, aliviado pelo salto seguro, mas logo o pensamento voltou ao biquíni amarelo, ao corpo dela, ao sexo... e a ereção veio. Shiryu começou a tocar o pênis ereto por cima da bermuda, mas logo a levou para dentro. Olhou de novo ao redor e viu que Shunrei estava na pedra outra vez, preparando-se para mais um salto, o que só atiçou ainda mais o desejo. Ele massageou o membro vigorosamente, tentando aliviar-se antes que ela voltasse, mas quando olhou de novo, ela já nadava em sua direção. Imediatamente tirou a mão de dentro da bermuda e tentou pensar em algo diferente, mas a ereção ainda era bastante evidente quando ela chegou. A água muito límpida não ajudava então ele se curvou um pouco tentando disfarçar.

Ah, eu sabia que você não ia aguentar o calor! – ela disse e ficou tentando decifrar a expressão enigmática dele. – O que foi? Você está com uma cara estranha.

Não... não é nada. É só que… não, nada…

Fala, Shiryu! – ela ordenou rindo e deu uma boa olhada nele, o que o fez se curvar ainda mais. – O que foi? Você está mesmo muito estranho.

Não é nada. Está tudo bem. Deve ser o calor.

É por causa… dele? – ela arriscou, apontando para a virilha do namorado.

Shiryu corou.

Ah, Shunrei, eu sinto muito – ele falou, tão baixo que mal dava pra ouvir. – Eu não… não consegui… não queria desrespeitá-la. Isso é bem constrangedor.

Meu amor – ela riu e o abraçou sem o menor sinal de desconforto. – Tudo bem. É o fluxo natural das coisas… Acha que eu também não sinto coisas quando estamos juntos?

Por um momento ele se perguntou quem era essa mulher que lidava tão bem com o assunto, depois se deu conta de que a conhecia menos do que pensava. Já que ela estava dando abertura, resolveu ir adiante.

Achei que você considerava cedo demais para isso... Não queria que se sentisse pressionada...

Não, eu quero – ela disse, com a voz clara, sem hesitação. – Eu te amo tanto, te desejo tanto… Não temos por que esperar mais... – Ela apertou mais o corpo contra o dele, sentindo o volume na bermuda dele. – Faz amor comigo agora, Shiryu…

Shunrei… – ele sussurrou de um jeito tão sensual que a deixou arrepiada, e começou a beijá-la do mesmo modo.

Decididos, tocaram os corpos um do outro em lugares que nunca ousaram antes, descobrindo sensações novas e irresistíveis. Aos poucos foram ganhando confiança, então ele abaixou o sutiã do biquíni dela, expondo os seios. Primeiro tocou a pele macia e os mamilos castanhos, depois os beijou, lambeu e sugou, enquanto as mãos seguravam com firmeza as nádegas.

Vem, vamos sair da água… – ele pediu. Queria continuar ali mesmo, mas os joelhos doíam.

Vamos… – ela concordou com um afago no peito dele e o ajudou a sair do lago. Depois estendeu no chão a toalha que levou para se secarem e deitou nela, ofegando, ansiando por Shiryu. Shunrei achou que, apesar de bem mais magro e com os músculos menos definidos, ele estava mais lindo do que nunca sob aquela luz laranja do sol poente, com aquele rosto corado de vergonha e excitação e os cabelos molhados grudados na pele.

Meu amor… – ele sussurrou e debruçou-se sobre ela, beijando-a avidamente.

Shunrei desamarrou o sutiã e tirou a calcinha, expondo-se por completo para ele.
Embora também estivesse envergonhada, Shunrei abriu a bermuda dele e a abaixou. Não era a primeira vez que o via despido e de pênis ereto, mas em todas as outras fora por acidente, quando cuidava dele inconsciente ou semiconsciente. Agora a situação era diferente e vê-lo excitado fez o calor no próprio ventre aumentar. Ansiava por ele dentro de si, então afastou um pouco as pernas, abrindo-se para ele.

Vem – ela disse, notando a pequena hesitação dele. Conhecia bem demais seu homem, sabia que ele estava nervoso, envergonhado e pensando até onde poderia ir sem desrespeitá-la, por isso sabia que precisava dizer a ele que estava tudo bem. – Faça o que tiver vontade… Eu sou sua...

E o que ele queria era tocar a intimidade dela, senti-la com as mãos e também com a boca, do jeito que viu naqueles filmes que se envergonhava de ver na madrugada, quando estava sozinho em Tóquio. 

Autorizado por ela, ele tomou coragem e beijou o umbigo. Aos poucos, foi descendo, desbravando o pequeno caminho até o púbis, e tocou a intimidade dela com os dedos, sentindo a maciez cálida e a umidade abundante. Ousou explorar com os lábios, sentindo o sabor dela. 

Shunrei estremeceu quando ele tocou com a língua seu ponto mais sensível, mas se sentia surpreendentemente à vontade com o rosto dele ali.

Milhares de coisas passaram pela cabeça de Shiryu quando imaginava esse momento: se saberia o que fazer, como fazer, se seria bom, se seria muito doloroso para ela, como seria o depois, o que falariam... Havia uma ansiedade tremenda que ele precisava controlar para não ir rápido demais. Então respirou fundo e tentou limpar a mente, focar apenas no momento e na sua Shunrei… Embora estivesse adorando tê-la em seus lábios, sentia que era a hora de ir adiante. Então ele segurou o pênis, encostou na abertura úmida e pressionou devagar, vencendo a resistência natural do hímen, atento à expressão de Shunrei. Temia machucá-la mais que o inevitável, mas ela o envolveu com as pernas, movendo os quadris em direção a ele e aprofundando a penetração, buscando o melhor encaixe, a pressão mais prazerosa. Imaginou esse momento tantas vezes e de tantas maneiras que conhecia bem o próprio corpo, sabia o que queria e do que gostava. Além disso, a dor era menor do que imaginava. O prazer, infinitamente maior.

Ficaram unidos, movendo-se juntos, alheios a todo o mundo exterior, focados apenas um no outro e no prazer que estavam sentindo. Logo o clímax dela veio em ondas, com suas deliciosas e incontroláveis contrações. 

Shiryu amou ver a expressão dela e o modo como todo o corpo se contraiu de prazer, mas agora era a vez dele. Apoiou-a novamente na toalha e beijou-a enquanto movia o quadril sobre ela, até o exato momento em que seu sêmen derramou-se dentro dela.

Eu te amo tanto, Shiryu… – ela falou, ainda arfando e com ele dentro de si.

Eu também te amo muito – ele respondeu, fazendo um carinho nela.

Ele rolou para o lado e puxou-a para si, aconchegando-a no colo.

Isso que fizemos… – ele disse depois de tomar fôlego. – Achei que esse dia nunca ia chegar. Ainda não acredito que chegou… Parece que isso aqui é outro mundo, sabe? Um mundo alternativo… Parece que eu morri na batalha e reencarnei em um mundo quase perfeito, onde eu e você podemos ser felizes juntos.

Quase perfeito? Por que quase?

Seria perfeito se não fosse esse joelho doendo o tempo todo.

Estamos no mundo real, amor. A dor faz parte e o prazer também…

Por falar nisso, doeu muito quando...?

Menos do que eu pensava. E eu estou tão feliz.

Eu também. Mas agora me ocorreu uma coisa que devíamos ter pensado antes… e se você engravidar?

Vai ser incrível! – ela respondeu com um sorriso largo. – Eu quero muito um filho seu.

Então que venha o nosso filho!

Quase Sem Querer - Capítulo IX - Parabéns

– Prontinho – Shunrei anunciou enquanto admirava sua obra concluída: o bolo esculpido em formato de gato para o aniversário de Natássia. O...