12 de dezembro de 2020

Quase Sem Querer - Capítulo III - Consequências

 

Depois de deixar Natássia na casa de Shiryu, Hyoga foi para o bar e tentou trabalhar, mas estava cansado, com sono e completamente disperso. Não fez nenhuma besteira, acertou todos os drinques, porém hoje isso lhe exigiu o dobro de concentração. Clientes e funcionários quiseram saber o que estava acontecendo com ele, mas o cavaleiro barman simplesmente se esquivou das perguntas a noite inteira porque ainda não estava pronto para falar sobre Natássia com pessoas fora do seu pequeno círculo íntimo de amizade.

Depois de fechar o bar, ele resolveu não voltar para casa, que ficava bem distante da de Shiryu. Dormiu em um hotel-cápsula perto do estabelecimento e às sete da manhã foi buscar a filha como combinado. Encontrou-a de banho tomado, penteada e tomando o café da manhã com Shiryu e Shunrei.

Papai! – ela gritou ao vê-lo e correu para abraçá-lo. – Natássia estava com saudade!

Oi, amor! – ele cumprimentou, pegando a menina no colo e beijando-a. – Como foi com os tios?

A tia Shunrei faz comida gostosa e eu gosto dos gatinhos! Meu gatinho é tão lindo! Não dá mesmo pra levar agora?

Não, não dá, querida. Já acabou seu café?

Ah, não! Ainda quero comer!

Senta aí, Hyoga – convidou Shiryu, sorrindo. – Toma café conosco. Você está com uma cara péssima.

Obrigado – ele agradeceu e sentou-se à mesa. – A cara está péssima mesmo, eu sei. Dormi poucas horas num hotel-cápsula perto daqui, mas estou mesmo é com fome. Nem lembro quando foi que comi.

Fique à vontade, Hyoga – Shunrei disse. – Temos baozi fresquinhos, ovos mexidos, mingau de arroz.

Um café da manhã chinês em Tóquio – disse Hyoga, provando um dos pãezinhos – Nossa! Isso está muito gostoso!

A gente sai da China, mas a China não sai da gente... – comentou Shiryu.

Tô vendo... Está tudo delicioso! Pessoal, eu não consegui ninguém pra ficar com a Nat hoje…

Pode deixar ela conosco sempre que precisar, Hyoga – Shunrei disse. – De verdade. Não é incômodo nenhum.

Traga ela de novo – Shiryu reforçou. – Vamos estar em casa.

Muito obrigado mesmo. Vocês são incríveis. E aqui eu sei que ela vai comer bem!

Não quero mais que vá trabalhar – Natássia disse.

Meu amor, papai precisa trabalhar. Ainda mais agora que tenho você!

Mas você ficou a noite todinha lá! Não é justo!

Você chegou muito rápido. Ainda estou adaptando as coisas. Vou arrumar alguém de confiança para ficar no bar e aí poderei passar mais tempo com você, mas por enquanto vai ter que ser assim.

Natássia cruzou os braços, emburrada.

Vamos lá, seja boazinha. Não foi legal ficar com o tio e a tia? Não gostou de brincar com os gatinhos?

Gostei, mas quero você!

Prometo que resolverei isso logo, está bem?

Está bem… – ela falou, ainda meio relutante.

Depois de saborearem o café, Hyoga foi para casa com Natássia. Dormir no hotel-cápsula não tinha sido o suficiente e ele se sentia muito cansado, enquanto ela estava cheia de energia. Mesmo exausto, ele resolveu dar uma volta no parque para a menina brincar um pouco, correr e se cansar. Antes de ir, ligou para Shun.

Oi. Te acordei? – Hyoga perguntou.

Não – respondeu o médico, mentindo. Olhou o relógio, passava das nove da manhã, mas ele tinha acabado de chegar de um plantão e ainda não tinha dormido nem duas horas.

Você vai trabalhar agora?

Não. Estou de folga hoje.

Estou pensando em levar Natássia ao parque. Depois almoçar em algum lugar legal. Tá afim?

Lógico! – respondeu Shun, esfregando os olhos. – Chego aí em uma hora.

Hyoga assentiu e desligou o telefone, feliz por Shun aceitar o convite. Depois ligou a TV e colocou em um canal infantil.

Vou tomar banho – ele disse a Natássia. – Depois a gente vai sair com o tio Shun. Fique quietinha aí. Já volto.

Tá bom! – ela disse, empolgada, e sentou no carpete para assistir TV.

Hyoga pretendia tomar um banho tranquilo e relaxante, coisa que ainda não tinha conseguido fazer desde a chegada de Natássia. Só conseguia tomar duchas rápidas, então deixou-se ficar sob o chuveiro, sentindo a água morna caindo sobre a cabeça. Fechou os olhos, pensando na filha. Estava convicto de que ficar com ela era a coisa certa, não passava pela sua cabeça desistir, mas precisava organizar os pensamentos a fim de organizar também sua nova rotina. Mais tarde ia entrevistar um barman novo e esperava que ele fosse bom o suficiente para substituí-lo algumas vezes. Se desse certo, seria um alívio e o resto se adaptaria aos poucos.

Então inevitavelmente pensou em Shun… em como ele sempre estava lá para ajudá-lo… Dessa vez não tinha sido diferente. Também estava disponível para ele, embora o cavaleiro raramente precisasse. Tinha se tornado tão forte, tão autossuficiente, tão admirável. Um médico! Depois de tudo que tinham passado, Shun ainda tinha encontrado coragem e determinação para estudar e se tornar um doutor. Ele era tão incrível! Se não fossem… irmãos… Teria coragem… Talvez tivesse… Queria tanto ter coragem mesmo assim… Pouca gente sabia que eram filhos do mesmo pai… Pouca gente, tão pouca… Ninguém mais precisava saber… Queria tanto que… pudessem...

Papai! – Natássia gritou assustada. Estava dentro do banheiro, olhando fixamente para Hyoga, com os olhos arregalados.

Morto de vergonha, ele procurou cobrir a nudez com as mãos. Depois pegou rapidamente a toalha e enrolou-se. Uns poucos segundos a mais e a situação seria ainda pior, já que estava pensando... nele...

Eu não disse para ficar quieta vendo TV? – ele perguntou, saindo do box e lamentando o hábito de solteiro de não trancar a porta.

É, mas me deu vontade de fazer xixi… – ela disse e apontou para o ventre dele. – Por que você tem isso e eu não tenho? Tira a mão! Deixa eu ver direito! Tem cabelo aí!

Natássia! – ele ralhou, sentindo a face queimar de vergonha. Não imaginou que essa conversa fosse acontecer tão cedo, mas respirou fundo e seguiu em frente, precisava explicar a ela. – É porque você é menina e eu sou menino. Meninos são como eu, meninas como você. Mas escute, você não pode entrar no banheiro assim quando outra pessoa estiver dentro. Não só no banheiro, em qualquer lugar. Você tem que bater à porta primeiro, chamar, e esperar que a pessoa abra ou mande você entrar. Entendeu?

Ela não respondeu. Inclinou um pouco a cabeça para o lado e piscou os olhos repetidamente.

Você entendeu, amor? Tem que bater na porta… – ele repetiu a pergunta e completou em pensamento: E eu tenho que fechar essa maldita porta… – Responde para o pai, Nat.

Eu quero um desses! – ela gritou e começou a dar pulinhos.

Hyoga bateu a palma da mão na testa e gentilmente a escoltou para fora do banheiro.

Volta para a sala, amor.

Cerca de uma hora depois, encontraram-se com Shun no parque.

Tiooooo! – Natássia gritou e correu para o médico, que a pegou nos braços e a ergueu no alto.

Você está tão linda! Quem te deu essa roupa?

Você!

Eu mesmo!

O médico a colocou no chão e arrumou a saia de pregas que ela usava.

Você não dormiu, né? – Hyoga perguntou a ele. – Tá com uma cara horrível.

Não importa. Tô acostumado. E quanto à cara, a sua também está péssima.

É, eu também não dormi.

E aí? Qual é o plano?

Deixar ela correr um pouco pelo parque, queimar energia, depois almoçar, voltar para casa e com fé em Deus ela vai dormir e eu também.

Boa sorte! – Shun deu uma gargalhada.

O que foi?

Nada... Só acho que ela não vai dar muita bola para os seus planos.

Mais tarde, depois do almoço, Shun, Hyoga e Natássia foram para a casa do russo. A menina ainda não parecia dar sinais de cansaço, pulava e corria pela casa, pegando brinquedos no quarto para mostrá-los a Shun.

– Eu avisei que ela não ia seguir seu plano – Shun disse, vendo o estado deplorável do amigo. – Vai dormir, Hyoga. Eu fico com ela até a hora de levar lá na casa do Shiryu. Só não fico o resto da noite porque eu também vou precisar dormir um pouco.

O russo estava tão cansado que nem tentou argumentar. Saiu arrastando os pés e se jogou na cama. Quando acordou horas depois, Shun já tinha preparado o jantar e arrumado a mochila de Natássia.

Vamos comer logo – Shun disse. – E aí eu vou para casa e você leva ela no Shiryu.

Hyoga assentiu, pensando que, por enquanto, Shun e Shiryu eram a solução perfeita mas isso não podia durar muito tempo e achar uma babá ia ser bem mais difícil do que ele pensava por causa do “problema” de Natássia ser uma criança "diferente"… Definitivamente ão podia ser qualquer pessoa.

Os três jantaram juntos e despediram-se, Shun seguiu para casa e Hyoga levou Natássia para a casa de Shiryu.

Hoje ela está cheia de energia, Shunrei – ele avisou quando deixou a menina.

Pode deixar comigo que eu dou conta – riu Shunrei. – Vamos ver seu gatinho?

Natássia arregalou os olhos e saiu saltitando atrás de Shunrei.

Eu vou resolver essa situação logo – Hyoga disse a Shiryu. Prometo. Eu só não quero deixar ela com qualquer pessoa porque ela é… diferente.

Relaxa, Hyoga. Não é incômodo nenhum cuidar dela. Está tudo bem. Shunrei adora crianças e agora Shoryu já é um homem, está lá em Rozan. Ela sente falta de ter uma criança em casa. Estamos tentando ter um filho biológico há vários anos, mas parece que o destino não quer colaborar.

Paciência, meu amigo. Vai vir quando for a hora.

Tudo bem, acho que estamos tranquilos quanto a isso. Virá algum dia, biológico ou outro adotivo. Shoryu e Natássia vieram de surpresa, não é? Quem sabe o destino não tem uma surpresa para nós também...

É, vieram... Ela veio quase sem querer, é birrenta, teimosa, contestadora, mas eu já a amo e não me vejo mais sem ela. Preencheu minha vida de um jeito que eu não podia imaginar… Ficaria horas falando, mas realmente tenho que ir agora. Hoje venho pegá-la às dez, tudo bem?

Tudo. Não durmo cedo. Às vezes nem durmo… Depende das dores que eu estiver sentindo.

E assim ele fez. Passou no bar, organizou tudo e delegou algumas tarefas. Quando tudo estivesse resolvido e um novo barman contratado, ele pretendia fazer assim todos os dias. Sair mais cedo, dormir em casa com ela, acordar, fazer o café para tomarem juntos.

Na hora combinada, Hyoga voltou à casa de Shiryu para pegar Natássia. A menina já estava dormindo e ele levou-a no colo até o carro e de lá para casa. Colocou-a na cama, programou o alarme no celular para sete horas e foi dormir do jeito que estava, só tirou a camisa.

Quando o alarme tocou, ele o desligou e foi caminhando para a cozinha, bocejando e esfregando os olhos, lutando para mantê-los abertos. Normalmente dormia até o meio-dia ou mais por isso acordar cedo era um martírio, mas ia acabar se acostumando... Tinha que se acostumar.

Ué... que água é essa? – ele perguntou-se ao pisar no chão molhado do corredor que dava para a cozinha. Ao entrar no cômodo viu a torneira aberta, o ralo fechado e a água escorrendo pelo piso. Primeiro pensou que tinha deixado aberto sem querer, mas lembrou que não foi à cozinha quando chegou. Então ele soube.

Natássia...

Esfregou os olhos mais uma vez, fechou a torneira e abriu o ralo para que a água acumulada descesse. Pegou um rodo e começou a empurrar a água para o ralo do piso. Depois começou a enxugar o restante.

Ele ainda enxugava tudo quando Natássia apareceu na porta da cozinha, de pijamas, agarrada com o urso polar de pelúcia que foi presente dele. Hyoga respirou fundo. Não queria brigar com a filha, mas ela precisava ser educada e entender que o fez foi errado. Ele se ajoelhou no chão molhado e dirigiu-se a ela.

Natássia, você fez isso de propósito? – ele perguntou. Ela abaixou o olhar, evitando encará-lo e não respondeu. – Natássia, estou perguntando se você fez isso por querer. Responda ao papai e não minta.

Eu acordei de madrugada e abri a torneira – ela confessou, ainda olhando para o chão. – Achei que molhando tudo você ia ficar enxugando e não ia trabalhar hoje.

Isso não foi certo. Não é assim que resolvemos as coisas. Dessa vez não vou castigá-la, mas não quero que isso se repita. Se você fizer algo assim outra vez, vou precisar colocá-la de castigo.

Castigo… – ela repetiu, com voz chorosa e olhinhos marejados. – Castigo não...

Não vou colocar agora, Natássia. É só se você fizer de novo algo assim, entendeu?

Entendi, papai.

Assim está bom – ele disse e abraçou a menina. Depois pegou um pano de chão. – Agora você vai pegar esse pano e ajudar a enxugar tudo.

Ah, não!

Ah, sim! Tudo o que a gente faz na vida tem consequências. Aprenda isso.

Não gostei de consequências.

Então da próxima vez pense bem antes de fazer travessuras. Vamos, guarde o urso e venha ajudar.

O nome dele é Oguinha.

Hyoga sorriu. Essa menina sabia como conquistar o coração dele, nem precisava fazer nada, mas dar o nome de Oguinha ao urso foi golpe baixo. Mesmo com o coração derretido de amor, ele tinha que ser firme com ela se quisesse educá-la bem.

Coloque o Oguinha para descansar no sofá e venha ajudar o papai. Depois que enxugarmos tudo, vamos tomar café, sua danadinha.

Quero comer bolo no café! – ela gritou e foi colocar o urso no sofá.

Bolo, Natássia? Não serve panqueca?

Não! Quero bolo!

Tá, vamos enxugar tudo e tomar café na padaria.

Vou levar o Oguinha com a gente, certo?

Certo, amor – ele sorriu, totalmente vencido por Natássia e Oguinha.



Continua…



Oie!

Eu rachei de rir quando o Hyoga falou que Natássia tinha inundado a cozinha. Como assim, você não desenhou essa cena, Okada? Ia ser incrível! Então, como ele não desenhou, eu quis muuuuito escrever a cena! E não resisti a mais um golpe! Primeiro a Shunrei com o golpe dos filhotinhos, agora Nat e o golpe do urso Oguinha!

Obrigada a todos que estão acompanhando!

Beijoooo

P.S.: Depois da maravilhosa aparição de Shoryu no capítulo 77 do Episódio G Assassino, adaptei a parte do capítulo onde Shiryu falava que ainda não tinha filho. *_*

Quase Sem Querer - Capítulo II - Amigos


Shun tocou quatro vezes a campainha do apartamento de Hyoga, até que o loiro finalmente veio atender, de pijamas e esfregando os olhos. Natássia veio logo atrás dele, saltitando de alegria, usando somente o short que vestia no dia anterior.

Oi, tiooooo! – ela gritou e agarrou-se às pernas de Shun.

Boa tarde, dorminhocos – Shun cumprimentou. Estava carregado de sacolas.

Estávamos dormindo até agora… – Hyoga explicou, sentindo-se meio desorientado. – Aliás, que horas são mesmo?

Quase uma da tarde!

Nossa! Você deve estar com fome, né, filha? – ele perguntou. Sentiu que estava começando mal, que seria um péssimo pai por ter dormido tanto, sem pensar na refeição da menina. Depois pediu calma a si mesmo. Era só o primeiro dia. Acabaria aprendendo, por bem ou por mal.

Fome? – ela indagou, piscando repetidamente os grandes olhos cinzentos. – Sim! Muuuuuuuuita fome, papai!

Eu imaginei. – Shun balançou as sacolas. – Trouxe almoço pra vocês.

Shun, não sei o que seria de mim sem você. Entra. Vou escovar os dentes e… ok, devia ter comprado escova de dentes para ela. Nem pensei nisso. Ainda não tive tempo de pensar em nada.

Eu pensei – disse Shun, erguendo uma sobrancelha de modo cômico. – Passei na farmácia e comprei escova, creme dental infantil, xampu, essas coisas. No caminho para cá, também passei por uma lojinha de roupas infantis e comprei algumas peças, umas calcinhas. Ela não pode ficar só com essa roupa de ontem!

Você tem toda razão – Hyoga disse, sem conseguir evitar sentir-se novamente um péssimo pai.

Roupas bonitas, tio? – Natássia perguntou a Shun.

Acho que você vai gostar, Nat – Shun disse e balançou no alto a sacola com as roupas, que ela saltou e tentou agarrar. – Só vou dar depois que lavar o rosto e escovar os dentes. – Ele entregou a sacola da farmácia a Hyoga. – Eu vou esquentar o almoço. Você pegue sua filha e vá logo para o banheiro.

Hyoga obedeceu a ordem de Shun e pegou Natássia no colo.

Você dormiu bem? – ele perguntou a ela, enquanto tirava da sacola a escova que Shun comprou.

Como é? Deixa eu ver! – ela pediu, ansiosa. – Quero ver, papai! Me dá logo!

Calma! Não vai fugir. Responde para mim. Você dormiu bem?

Eu dormi bem demais! Agora deixa eu ver! – Ele entregou a escova a ela. Ah, é de ursinho! Eu amei! Eu amei!

Ele sorriu, colocou um pouco de pasta na escova, molhou e deu novamente a ela.

Você sabe fazer isso, não sabe? – perguntou.

Eu acho que não lembro…

Então ele pegou a própria escova e foi mostrando a ela, que repetiu tudo certinho.

Muito bem, você é uma menina inteligente – ele cumprimentou, dando um beijo no rostinho dela.

Claro que eu sou, papai! Agora vamos, quero ver minhas roupas novas! Vem, vem, papai! Anda!

Hyoga foi acompanhando-a, praticamente arrastado por ela, e quando chegou na cozinha o cheiro da comida que Shun esquentava fez sua barriga roncar alto. Lembrou-se que não comia nada desde o começo da noite anterior. Ele e Natássia sentaram-se à mesa, e Shun os serviu.

Trouxe arroz e frango frito – Shun disse. – Achei que isso seria mais fácil de agradar o paladar infantil. Você gosta de frango frito, Natássia?

Eu não sei. Deixa eu ver. O cheiro é bom, tio!

Shun sorriu e sentou-se para comer com eles. Natássia olhou curiosa os dois homens comendo com hashis.

– Não sei fazer isso! – ela exclamou.

Com o tempo você vai aprender – Shun disse e deu a ela uma colher que pegou na gaveta de talheres.

Você é um anjo, Shun – Hyoga disse admirando-o. – Fazer isso por nós depois de 24 horas de plantão! Só você mesmo.

Eu sou seu amigo, estou acostumado a não dormir e vocês merecem. Estão começando agora uma nova família!

Estou feliz por ter você aqui. – Sem pensar, Hyoga segurou uma das mãos de Shun entre as suas. – De verdade.

Está me deixando sem graça – replicou o médico, realmente envergonhado. – Come aí seu franguinho.

Está delicioso. Depois acho que tenho que sair. Você está certo, preciso comprar coisas para ela.

Eba! Comprar coisas! – Natássia gritou, com a boca cheia de frango e arroz. – Eu adoooooro!

Querida, não deve falar com a boca assim tão cheia – corrigiu Hyoga, em um tom carinhoso. – Engula a comida primeiro.

Assim, papai? – ela perguntou, depois de engolir como Hyoga disse.

É, amor – ele respondeu, fazendo um carinho na cabeça dela. Depois dirigiu-se a Shun: – Vou preparar o quarto de hóspedes para ela.

Eu quero continuar dormindo com o papai! – protestou Natássia.

Não. Você precisa ter seu quarto. Vou deixar você escolher umas coisas bem legais pra colocar lá, você não quer comprar coisas legais?

Então assim eu quero um quarto só meu!

E você tem que comprar roupas, sapatos, coisas que ela precisa – completou Shun. – Eu só trouxe duas mudas de roupa, ela precisa de mais. Eu vou com vocês.

Tem certeza? Você estava de plantão, cara.

Eu vou e pronto. Não tente me impedir.

Hyoga assentiu. Sabia que não conseguiria detê-lo. Os três terminaram a refeição e enquanto a menina se divertia abrindo os pacotes das roupas, os dois homens lavavam os pratos e conversavam.

Passei no laboratório e dei uma olhada nos resultados dos exames – Shun disse. – Do ponto de vista sanguíneo, ela é completamente saudável. E humana. Seria bom levá-la ao curandeiro do Santuário para que ele avaliasse outras coisas, mas fisicamente garanto que ela está ótima.

Quantos anos acha que ela tem? – Hyoga perguntou.

É difícil saber assim, mas acredito que entre cinco e seis. Me diz, o que você vai fazer com ela à noite quando for para o bar?

Eu não sei! – disse Hyoga levando as mãos à cabeça. – Não pensei. É muita coisa pra pensar tão de repente.

Quer que eu fique com ela?

Não, Shun. Você também precisa dormir! Eu vou dar um jeito.

Eu realmente posso ser esse jeito. Posso ficar com ela.

Não vamos começar a explorar você agora, Shun. Depois talvez a gente explore. Com certeza a gente vai explorar, mas por enquanto, não.

Que tal Shiryu? – Shun sugeriu. – Será que ele e Shunrei não podem ficar com ela hoje?

Boa ideia. Vou ligar pra ele – disse e pegou o celular. Achou o número de Shiryu e chamou. O amigo logo atendeu. – Shiryu, você está ocupado hoje?

Na verdade, não. O que foi?

Preciso te pedir um favor imenso – disse o loiro, dramatizando. – Não tenho mais ninguém a quem recorrer.

Parece sério. Pode pedir, você sabe que pode.

Eu adotei uma criança. Uma menina.

É o quê? Repete! – Shiryu perguntou depois de alguns segundos de silêncio, tentando entender se tinha ouvido corretamente. Era só o que faltava, além da tendência a ficar cego, agora estava ficando meio surdo?

É isso. Eu adotei uma menina. Vou te contar tudo direitinho, mas preciso que você e Shunrei fiquem com ela essa noite. Shun está aqui em casa, ofereceu-se pra ficar, mas ele estava de plantão, e já vai me ajudar hoje à tarde. Se continuar assim ele vai acabar virando o Dr. Zumbi.

Eu disse a ele que ficava com ela mesmo assim! – Shun falou bem alto a fim de que Shiryu também ouvisse.

É, mas ele precisa descansar… E não quero levar ela para o bar. Deixo ela aí no começo da noite e pego de manhã cedinho. Por favor, somente essa noite. Amanhã vou arrumar alguém para ficar com ela aqui em casa. Me ajuda, Shiryu!

Calma, cara! Eu só estou meio chocado com a novidade, mas é claro que pode trazer a menina para cá. Shunrei não está em casa agora, mas tenho certeza que ela vai adorar.

Você me salvou, amigo!

Não faça tanto drama. Traga a menina para conhecermos e ouvirmos essa história inteira. Vai ser um prazer.

Tudo resolvido – Hyoga disse a Shun depois de desligar. – Shiryu pode ficar com ela.

Quem tem amigos, tem tudo, não é assim o ditado? – o médico riu e deu um tapinha nas costas de Hyoga.

Sim, era verdade. Ele pensou que podia fazer isso sozinho, mas precisava de ajuda. Felizmente, tinha bons amigos a quem recorrer.

Vou dar um banho nela e depois tomar um também – ele disse. – E aí a gente vai às compras.

– Certo. Eu termino as coisas aqui na cozinha. Me chame quando terminar o banho dela. Eu a arrumo enquanto você se banha.

Hyoga fez exatamente como Shun disse e quando terminou de se aprontar, Natássia já estava usando o vestido amarelo que o médico trouxe e ele já estava penteando os longos cabelos dela.

Você quer uma trança? – Shun perguntou.

Sim! Trança, tio!

Shun então separou o cabelo fino dela em mechas e fez uma intrincada trança francesa. Hyoga pensou que jamais seria capaz de reproduzir aquilo.

Ficou linda! – Hyoga disse, aproximando-se do dois. – Vamos?

Os três partiram para o shopping, onde compraram mais algumas roupas e sapatos para Natássia. Depois, na loja de móveis, Natássia escolheu tudo cor-de-rosa: cama, guarda-roupa e penteadeira. Mais tarde, ela viu um urso polar na vitrine de uma loja e cismou que queria. Hyoga não resistiu e comprou. Quando terminaram, já estava na hora de levá-la para a casa de Shiryu, então os três seguiram para lá.

Natássia, esses são o tio Shiryu e a tia Shunrei – Hyoga disse quando o casal os recebeu. A menina olhou os dois de cima a baixo, arregalando os grandes olhos cinzentos e analisando-os.

Oi, tios – disse, meio desconfiada. A gata gorducha do casal veio cumprimentá-la. – Um gatinho! Olha, papai!

Você gosta? – Shunrei perguntou. – Ela tem filhotinhos. Quer ver?

Querooooo!

Shunrei segurou a mão de Natássia e levou-a para ver os filhotes.

Pronto. Shunrei já ganhou ela – disse Shiryu. – Filhotinhos nunca falham. Golpe certeiro. Agora entrem aí e expliquem essa história…

Claro. Mas antes, você está bem mesmo? – Shun perguntou. – Shura me disse que sua luta foi muito dura.

Estou bem, sim. Você sabe, é o de sempre, sangrar pra caramba, ficar cego de tão fraco, voltar a enxergar… Já estou acostumado. Agora explica essa filha que apareceu de repente, Hyoga.

Bom, eu lutei contra ela – Hyoga confessou baixinho para que a menina não ouvisse.

Lutou? Ela deve ter o quê? Cinco anos?

Ela estava possuída por um Sem Rosto. O miserável usou uma criança! Quando eu o derrotei, o corpo da menina foi libertado. Achei que ela estava morta… Mas não. Ela não se lembrava de nada, nem do próprio nome… Era como se tivesse nascido naquela hora. Estava assustada, com medo. Eu simplesmente não pude deixá-la…

Me dê um minuto pra digerir toda essa história…

Eu também precisei desse minuto – Shun disse. – Compreendo perfeitamente.

Sei que é complicado… – admitiu Hyoga. – Mas eu simplesmente não podia fazer de outra forma… Preciso deixar ela aqui hoje, mas já entrei em contato com algumas pessoas. Preciso arrumar um barman com urgência pra ficar no meu lugar. Depois vou delegar funções, promover um bom funcionário que tenho a gerente, e aí terei mais tempo para ela, não vou precisar ficar o tempo todo no bar. Ficava porque não tinha outra coisa para fazer, mas agora tenho uma filha.

Agora você é um pai solteiro – reforçou Shiryu. – Eu diria que isso tudo é uma loucura, uma grande, imensa loucura, mas estou vendo como você está decidido e acho que não vai se arrepender.

Não vou. Tenho certeza disso. Vou cuidar de Natássia pelo tempo que a vida dela durar. Bom, agora tenho que ir. Pego ela amanhã cedo. – Ele entregou a Shiryu uma mochila com algumas das coisas que tinha comprado para Natássia. – Só saio do bar lá pelas duas da manhã, não vou te incomodar a essa hora.

Tudo bem! Fique tranquilo. Vamos cuidar dela. Só acho bom se preparar porque é capaz de ela querer um gatinho dos nossos.

Com certeza! – completou Shun.

Não inventa, Shiryu! Já estou pensando como vou dar conta dela, imagina arrumar um gato agora!

A sua sorte é que eles ainda não desmamaram…

Nat, vem dar tchau pro pai – ele chamou, aliviado pela informação.

Ela veio com um gatinho branco no colo.

Olha, pai! Quero esse!

Eu avisei… – riu Shiryu, e olhou cúmplice para Shunrei.

Nat, agora não vai dar…

Mas eu quero!

Nat, ele ainda é muito bebê – explicou Shunrei. – Precisa da mãezinha dele. Quando ele crescer um pouco, veremos como vamos fazer.

Mas é meu, não é?

Shunrei olhou para Hyoga, buscando uma resposta.

É seu – ele disse – mas ele vai morar aqui na casa do tio Shiryu e você virá vê-lo sempre que quiser, tá bom?

Natássia pensou um pouco e respondeu:

Então tá bom!

Aliviado, Hyoga abaixou-se e deu um beijo nela.

Agora eu tenho que ir. Comporte-se bem!

Tá, papai.

E eu também já vou – Shun avisou e também abaixou-se para se despedir dela. – Não vou ganhar beijo?

Claro que vai! – Ela deu um beijo no rosto de Shun e ganhou um dele. – Quando você vem me ver de novo?

Eu não sei, mas vou fazer tudo pra que seja logo!

Logo é bom! Tchau, tio! Tchau, pai.

Natássia virou-se sem cerimônias e voltou aos gatinhos, deixando um Hyoga desolado para trás.

Ela se despediu tão facilmente lamentou-se o russo.

É assim mesmo – Shiryu riu. – Vá se acostumando.

Continua… 

Quase Sem Querer - Capítulo I - Papai

 

Os personagens de Saint Seiya pertencem a Masami Kurumada e os do Episódio G Assassino a Megumu Okada. Com minhas fanfics não ganho nada além de satisfação pessoal.

Avisos: Contém spoilers do mangá Episode G Assassin e relacionamento amoroso entre homens. Se não curte, não leia.



QUASE SEM QUERER

Chiisana Hana

Capítulo I – Papai



Shun, você pode me ajudar? – Hyoga pediu ao telefone.

Shun geralmente adivinhava o estado de espírito do amigo somente pelo tom da voz, mas dessa vez não soube interpretar direito. Achou que ele parecia no mínimo confuso. O tom era urgente, mas ele também parecia feliz.

O que houve? – perguntou o cavaleiro que tinha se tornado médico. – Alguma coisa séria?

Eu fiz uma coisa… Onde você está? No hospital?

Sim, estou de plantão hoje. Você está me deixando nervoso, Hyoga.

Posso ir aí?

Claro. O plantão está tranquilo, mas venha logo porque esse mistério todo está me deixando louco.

Estou indo. Me espere.

Cerca de meia hora depois, Hyoga bateu à porta da sala do Dr. Amamiya. Mesmo depois de anos, ele ainda achava incrível Shun ter conseguido tornar-se um médico depois de tudo que aconteceu nas batalhas. O vestibular difícil, o longo curso, a residência, ele tinha passado por tudo isso e agora construía uma bela carreira como emergencista.

Shun abriu a porta e cumprimentou Hyoga, mas logo olhou para baixo e viu uns bracinhos infantis agarrados à perna do amigo. Abaixou-se para ficar na altura da criança e estendeu a mão, ainda sem compreender. A menina olhou desconfiada para ele, mas segurou a mão oferecida.

Olá. Eu sou o Shun – ele cumprimentou a menina de cabelos e olhos cinzentos, sorrindo de forma amigável.

Papai, ele é seu amigo? – ela perguntou a Hyoga, ainda desconfiada.

Shun ergueu o olhar para Hyoga como se tivesse sido espetado por uma das rosas de Afrodite.

Pa-pai? – ele perguntou, incrédulo, erguendo as sobrancelhas, já que até ontem Hyoga não tinha filha nenhuma.

Era isso que eu precisava te contar – o russo explicou.

Bom, eu estou muito surpreso – declarou, convidando-os a entrar na sala. – Agora me explica direito isso.

Ainda não posso explicar direito – ele disse e apontou para a menina. Shun entendeu que ele não queria falar na frente dela. – Eu vou te contar tudo depois, mas o fato é que decidi ficar com ela. Eu nem pensei, só resolvi e pronto. Queria que você a examinasse para ver se está bem mesmo. Tivemos um… problema...

Claro – ele disse, pegando o estetoscópio e o termômetro e dirigindo-se à menina. – Como você se chama?

Natássia! – ela respondeu alegremente. Já não parecia desconfiada. – Papai me deu esse nome e é tão lindo! Eu amei!

É um lindo nome, sim – Shun disse, auscultando o coração e os pulmões dela. – Agora respira bem fundo. Isso mesmo.

Shun prosseguiu o exame, aferiu a temperatura, checou a garganta, tomou-lhe o pulso.

Aparentemente ela está ótima – ele concluiu, ao terminar de examiná-la. – Vou pedir alguns exames por precaução. Coisa simples, tipagem sanguínea, hemograma completo, essas coisas.

Isso. Peça um check-up completo. Amanhã trago ela pra fazer.

Posso fazer agora, dou entrada nela como urgência, o laboratório faz tudo logo e em algumas horas fica pronto.

Hyoga assentiu e Shun rapidamente fez as prescrições e levou os dois para o laboratório de coleta.

Segure ela bem – advertiu o médico. – Crianças são imprevisíveis quando veem a agulha…

Agulha? – Natássia perguntou, arregalando os já grandes olhos cinzentos. – Agulha não, papai!

É só uma picadinha, Natássia – Hyoga disse, tentando confortá-la com um afago, mas Natássia começou a gritar e se debater e ele precisou segurá-la realmente com força.

Eu te avisei – disse Shun, ajudando Hyoga a segurá-la quando o técnico veio com a seringa.

Pronto. Acabou. Não precisa mais chorar – Hyoga disse, acalentando-a depois da coleta. – Foi só para saber se você está com saúde, querida.

Não quero mais agulha! Nunca mais!

Não vai ter mais…

Você prometeu que ia me proteger do que me dá medo!

Sim, mas isso é para o seu bem, querida.

Que tal um pirulito? – ofereceu Shun, mostrando a ela o doce em formato de coração que costumavam oferecer às crianças na coleta.

Natássia pegou o doce e enfiou na boca. Rapidamente parou de chorar. Sorrindo, Shun os chamou para voltar a sua sala. Entretanto, quando se dirigiam para lá, ele recebeu um chamado pelo sistema de som do hospital.

Eu preciso atender – ele disse. – Fiquem na minha sala e me esperem. Precisamos conversar.

Hyoga fez o que ele disse e ficou ali com Natássia, tentando distraí-la, mas quando Shun voltou à sala, cerca de meia hora depois, ela estava dormindo no colo do novo pai. Ansioso para saber o que estava acontecendo, Shun aproveitou o momento.

Agora que ela dormiu, você pode me contar o que está acontecendo? – perguntou. – Não entendi nada.

Depois de um longo suspiro, Hyoga começou a falar sobre a batalha onde enfrentou a menina enquanto ela estava possuída pelo "deus do Mar", sobre a "morte" dela e como ele quis preservar o corpo colocando-o em um esquife de gelo.

Aí de repente alguma coisa aconteceu e ela estava viva – ele concluiu. – É isso. Ela era um amontoado de cadáveres, mas de repente, não sei como, criou vida. Não lembrava de nada, era como se ela tivesse nascido ali naquele momento. Estava tão assustada, com tanto medo... Ficou me chamando de pai... Então eu decidi… Eu sei que é loucura, ainda não dá nem pra saber o que ela é, se ela é humana… Tem forma humanoide agora, mas não sei. Só sei que eu não podia largá-la por aí. Não sei de onde ela veio e creio que vai ser impossível descobrir. Não sei nem se ela é deste mundo, deste tempo… Você sabe, muitas coisas fora do comum acontecendo nos últimos dias. Tem um Shura adolescente andando por aí!

Logo teremos uma ideia do que ela é… – Shun disse, referindo-se aos exames. – Não se preocupe, o pessoal daqui do hospital está acostumado com coisas diferentes… Se houver algo, não vai sair daqui.

Hyoga assentiu e Shun, que estava sentado numa cadeira de frente para ele, aproximou-se um pouco mais e segurou a mão do amigo.

O que você está fazendo por ela é de uma coragem imensa, Hyoga. Já é difícil quando você se torna pai de um bebê que esperava, tratando-se de uma criança maior, totalmente inesperada, e sendo você um homem solteiro, a coisa fica ainda mais complicada.

É, sei que vai ser complicado, mas não podia simplesmente ignorar essa criança que foi usada pelo mal, seja lá o que ela for.

Quero que saiba que pode contar comigo para o que precisar. Você não está sozinho, não. Eu vou te ajudar a cuidar dela.

Eu agradeço demais, Shun. Por tudo que sempre fez por mim, desde aqueles tempos, os tempos de batalha, até agora...

Estarei sempre aqui pra você. Sempre.

Sabe, eu não estou fazendo isso só por ela – Hyoga confessou a Shun, num tom envergonhado. – É por mim também. Estou com trinta e quatro anos... Sempre me virei bem sozinho, pelo menos acho que sim, e até gostava dessa liberdade, mas cheguei a um ponto em que estava sentindo falta de alguma coisa que eu não sabia o que era. Tenho dinheiro, meus negócios vão bem, tenho um apartamento confortável, sou bonito. – Shun riu. – O que é? Eu sou. Não negue.

Você é – Shun admitiu.

Mas ainda faltava algo – Hyoga prosseguiu. – Então ela apareceu e de repente eu soube... Eu podia deixá-la no orfanato e seguir minha vida, apenas checando de vez em quando se ela estava bem, mas eu não quis. Eu senti naquela hora que tinha de me tornar o pai dela. E quando ela me perguntou como se chamava, eu não pensei duas vezes e dei a ela o nome da minha mãe.

Ela é sua filha agora. Foi uma bela homenagem.

Sim… Minha mãe deve estar orgulhosa de mim, não é?

Ela não teria motivos para não estar. Você é e sempre foi um cara incrível.

Então, eu vou indo – ele disse ao sentir que começavam a entrar em um terreno perigoso onde sentimentos guardados muito profundamente podiam aflorar. Levantou-se do sofá com a filha no colo. – Já está quase amanhecendo. Preciso dormir um pouco. E ela precisa dormir numa cama, não no sofá da sua sala.

Passo na sua casa quando sair do plantão.

O loiro assentiu com um gesto e já ia saindo quando Shun o chamou de novo.

Hyoga, conte comigo para o que precisar. Eu vou repetir: sempre estarei aqui para você.

Hyoga sorriu de um jeito que Shun vira poucas vezes ao longo dos muitos anos de amizade. Um sorriso terno, amoroso, de felicidade simples e pura, o qual iluminou o dia de ambos.

Continua...


Quase Sem Querer - Capítulo IX - Parabéns

– Prontinho – Shunrei anunciou enquanto admirava sua obra concluída: o bolo esculpido em formato de gato para o aniversário de Natássia. O...